Manhã de sábado de Maio, temperatura alta para a época. Uma idosa caminha peregrina, passo vagaroso, cansado, transpira por todos os poros. Vemo-la no meio de uma via vicinal rodeada de latadas de videiras, tem uma simples e modesta malinha na mão e apoia-se na bengala, objeto da nossa atenção. Trata-se de uma bengala em segunda mão; a primeira em madeira de cerejeira, que herdou do seu saudoso pai, foi-lhe roubada junto à residência. Em poucos dias, roubaram-lhe a bengala e a reforma. Como era uma mais-valia não declarada ao fisco, será que a “ religiosa e benemérita” instituição fiscal resolveu penhorar a bengala da pobre mulher? Ou talvez, por não ter as medidas determinadas pelas normas determinantes da CEE, terá sido apreendida pelos serviços da ASAE? Ao certo, não se sabe.
À mesma hora da manhã, milhares de peregrinos deslocam-se para Fátima, muitos a pé para pedir favores divinos ou agradecer graças concedidas. A Fé é algo de misterioso, está para lá das nossas capacidades, é uma interrogação de difíceis respostas. A Fé ajuda e é uma mais-valia para a nossa vida, mas não podemos olhar para o céu, para o divino, se esquecemos o humano. O Padre José Miguel, sepultado à entrada do Soito (Sabugal), foi procurado, nas suas vivências sacerdotais, por milhares de cidadãos com muitas preocupações e interrogações, para lhes dar respostas. A única resposta, o único caminho que indicava, era este: “ tenham Fé, tenham muita Fé. A Fé é que nos salva.”
A nossa idosa também caminha na Fé de encontrar alguém, que lhe dê ajuda para um problema familiar. Há anos, um dos seus sete filhos entrou na cadeia por diversos crimes do mundo da droga. Diz o povo que “de bom ninho também nasce mau passarinho ”.
Um dia a nossa idosa procurou uma assistente social para o seu filho. Ela interessou-se pela situação e com ajuda de uma equipa multidisciplinar, o jovem foi recuperado e integrou o mundo do trabalho. A idosa nunca mais esqueceu esta atitude – os problemas humanos tratam-se hoje e não amanhã, não ficam adiados.
O filho tornou-se manobrador de máquinas de terraplanagem, fazendo o serviço na perfeição. A vida correu bem durante algum tempo. Mas um dia comprou um jornal e conheceu uma brasileira por vinte euros. É a lei da oferta e da procura na atividade mais antiga da humanidade. Desde a “idade da pedra” que o prazer carnal é desejado, do pilha-galinhas aos homens do apito, dos negócios, financeiros e de tantos outros.
O nosso homem mordeu o isco ea sua situação laboral, social e familiar alterou-se. A vida conjugal desmoronou-se e caiu de novo no vício, desta vez no álcool. Para esquecer tanta desgraça foi “dar de beber à dor”. Deixou de trabalhar e passava os dias a beber. A pobre da mãe tinha de sustentar o vício do filho com a sua magra reforma.
A mãe pediu ajuda com o coração nas mãos: o filho, se não for socorrido, cai no abismo. Recorreu ao Centro de Saúde, mas o filho não quis dar o passo em frente, e as nossas leis não obrigam um alcoólico a fazer tratamento, a menos que cometa um crime muito grave e violento ou coloque em causa a segurança nacional. Nesse caso, sim, o Estado intervém no sentido de obrigar o tratamento.
Na segunda-feira, esta viúva foi acompanhada aos Serviços Sociais da Câmara Municipal, que encaminharão este assunto para as “entidades competentes”.
A mãe reside num dos vales da nossa toponímia geográfica, um vale de lágrimas, cavado no sofrimento e muitas vezes na indiferença da sociedade.
Faço votos para que o filho se recupere e a mãe volte a ser feliz, mas tenho muitas, muitas dúvidas…

 

António Alves Fernandes
Aldeia de Joanes
Maio/2014