# Sabugal – A a cidade está mais probre…

- **Autor:** Padre Hugo Martins
- **Data:** 2015-01-01T14:13:12+00:00
- **Categoria:** Noticias
- **URL Original:** https://padrehugo.com/blog/sabugal-a-cidade-esta-mais-pobre

---

### SABUGAL – A CIDADE ESTÁ MAIS POBRE…


### Conhecia-a há alguns anos, na sua “Casa do Castelo”, no Sabugal. A receção, a postura, a sensibilidade, a sua forma de ser e estar, a sua paixão por tudo o que era arraiano, fizeram-me sentir a presença de uma GRANDE MULHER.


### Com o prolongamento das visitas pessoais, sozinho e acompanhado, recordo as excursões do Grupo Desportivo da Portucel (Setúbal), organizadas pelo seu Presidente Ezequiel Alves Fernandes (Bismula). Todos foram unânimes no enaltecimento da simpatia e acolhimento excepcional desta Senhora, que recebeu os visitantes setubalenses com um serviço de aperitivos.


### Nasceu há cerca de cinquenta e poucos anos e viveu sempre no Sabugal. Aí estudou e trabalhou.


### O pai, Abílio Martins, oriundo de Coimbra, resolveu vir para o Sabugal a fim de vender petróleo em terras que só tinham a lua e sol como luz e energia. Não seguiu as pisadas dos seus familiares que emigraram para a Argentina, o país que alimentava a Europa numa guerra de carnificina com produtos agrícolas e pecuniários. Foram à procura do “El Dourado”, como o fizeram milhões de europeus. Muitos dos seus familiares vivem na Argentina e um deles fundou a cidade de Santa Maria de Ponilla, na região de Córdova.


### Em Malcata, o pai conheceu Maria de Lurdes Simões, juntaram os “ trapinhos” e casaram na Igreja Matriz do Sabugal (ainda não lhe tinham construído aquele mamarracho imobiliário, que quase a colocou na clandestinidade). Desta união familiar nasceram duas filas e um filho.


### O “ Tio Petroleiro “, como era conhecido na região, com uma carroça puxada por uma mula, percorria todas as freguesias e lugarejos da zona arraiana para vender o precioso líquido, que iria iluminar casas, estábulos, palheiros e um ou outro motor. Esta energia dava luminosidade à escuridão milenar que se apoderara daqueles pobres espaços geográficos.


### Com algum proveito adquiriu um pequeno café, o Ribacôa, num local estratégico, no largo em frente à Cadeia Civil e à Câmara Municipal, e ao lado da Repartição das Finanças. Os funcionários e os utentes tinham ali à mão um espaço comercial, que já vendia café, mais tarde com a aparição da RTP, ali todos iam ver os programas do seu interesse (religioso, cerimónias de Fátima, musical, cultural, rural, desportivo e outros) e eram servidas bebidas frescas, graças aos frigoríficos a petróleo.


### A GRANDE MULHER, com a morte do pai, teve de ajudar a mãe nos negócios do café enquanto ia estudando no Colégio do Sabugal, propriedade de Diamantino dos Santos.


### Conheceu, mais tarde, Romeu Augusto Bispo, um sabugalense bancário com grande atividade no associativismo social e desportivo, passando dois mandatos pela provedoria da Santa Casa da Misericórdia.


### A GRANDE MULHER também colaborava com a comunidade, prestando serviços na Catequese e na missão da Igreja.


### Dedicou-se durante alguns anos na ocupação dos tempos livres das crianças, colaborando com a Irmã Maria Rita Dinis da Fonseca, do Colégio da Cerdeira.


### Vendeu roupas, produtos cosméticos e outros produtos de beleza através de catálogo, até ter meios financeiros para recuperar uma casa em ruínas em frente ao Castelo das Cinco Quinas, baptizando-a de “Casa do Castelo”. Na reconstrução descobriram-se várias pedras de valor patrimonial e histórico - uma ara romana e diversas pedras medievais não identificadas. Cereja no cimo do bolo, deu-se a descoberta valiosa de um altar judaico – ARON HÁ KODESH -, uma espécie de armário da lei, onde eram guardados os livros e objetos de culto. Um monumento revelador da presença judaica na região do Sabugal.


### Na “Casa do Castelo”, Posto de Turismo e Centro Cultural, muitas foram as suas finalidades: ali se encontravam diversos produtos turísticos, gastronómicos e culturais, em especial livros de autores do concelho. Ali estava a GRANDE MULHER, com a sua paixão, bairrismo, a vender tudo o que falava língua e trato sabugalense. Era cicerone e acompanhante de gentes de outros locais nacionais e estrangeiros, que queriam conhecer aquelas terras históricas, que D. Dinis, o, o Rei Lavrador, no Tratado de Alcanizes com Fernando IV de Castela, colocou em pertença da Coroa Portuguesa. Era uma rececionista de afetos.


### Ali se faziam tertúlias literárias, encontros de personalidades das artes e das letras, apresentações de livros, recitação de poesia.


### Esta GRANDE SENHORA, uma grande cidadã com carater cívico, social e cultural, chama-se MARIA NATÁLIA SIMÕES MARTINS BISPO, faleceu hoje, dia 30 de Dezembro, na Unidade da Dor do Fundão, pouco tempo depois de lhe dar o último adeus. Não merecia tanto sofrimento quem tanto deu aos outros.


### O Sabugal, as suas gentes, a cultura arraiana ficaram mais pobres.


### António Alves Fernandes


### Aldeia de Joanes


### Dezembro/2014


[caption id="attachment_8290" align="aligncenter" width="838"] SABUGAL – A CIDADE ESTÁ MAIS POBRE[/caption]
