“Nunca vimos coisa assim”.
Padre Hugo Martins
Paróquia de Padre Hugo

Muitos dos contemporâneos de Jesus já se tinham dado conta que Ele era portador de “uma nova doutrina” (Mc 1,27). Agora, perante o que acabam de ouvir e ver, eles vão mais longe, confessando: “nunca vimos coisa assim”. Curando o paralítico, Jesus ensina e confirma que tem poder para perdoar os pecados dos homens. Não é o milagre que surpreende os presentes, pois já tinham testemunhado muitas outras curas realizadas por Jesus. O que realmente os surpreende, o que nunca antes tinham visto, o que os maravilha e leva a glorificar a Deus é que Jesus tenha efectivamente o poder de perdoar os pecados dos homens! Os escribas consideram que Jesus está a blasfemar, atribuindo-se um poder que só pertence a Deus. Eles até têm razão ao afirmar que o poder de perdoar pertence exclusivamente a Deus. De facto, o pecado do homem é uma ofensa a Deus e, nessa medida, só Deus, o ofendido, pode perdoar ao homem pecador. No entanto, deveriam ter entendido que Jesus, ao declarar que perdoava os pecados ao paralítico, estava a revelar-lhes que tem poder igual ao de Deus, ou seja, que é verdadeiro Deus. Na verdade, a partir do que já tinha ensinado e pelos milagres que já tinha realizado, os escribas tinham a obrigação de acreditar nas palavras de Jesus. Alguém que ensina com autoridade e realiza “as obras de Deus” não pode estar a blasfemar, não pode estar contra Deus, não pode atribuir-se indevidamente aquilo que é próprio de Deus. A fim de provar que tem realmente poder para perdoar os pecados e mostrar aos escribas como estão enganados a seu respeito, Jesus cura o paralítico. Muito provavelmente, mesmo com este sinal extraordinário, os escribas continuam a pensar mal de Jesus e a rejeitá-l’O. Porém, muitas outras pessoas maravilham-se com Ele e glorificam a Deus. Esses experimentam o que antes nunca tinham visto: a misericórdia de Deus e a graça do perdão! “Ao ver a fé daquela gente...” Jesus reconhece que aqueles homens (o doente e os que o transportam) acreditam n’Ele. É a fé que os move a ir ao encontro de Jesus e os leva a vencer todos os obstáculos até chegarem junto d’Ele. Por isso mesmo, Jesus conclui que estão preparados para lhes revelar o que não esperam e para dar ao doente aquilo que ele não pede: “Filho, os teus pecados estão perdoados”. Ao paralítico, que lhe pede a cura, Jesus concede-lhe o perdão dos seus pecados. A todos os outros, Jesus revela que Ele não tem apenas o poder para fazer milagres, mas que tem um poder maior e mais vantajoso para os homens, o poder de perdoar. “Nunca vimos coisa assim”. Jesus não veio ao mundo para curar os doentes. Se curou alguns, foi para manifestar o poder do amor de Deus e como Deus é sensível ao sofrimento do homem. Jesus veio para perdoar os pecados dos homens. Ofereceu-se a si mesmo ao Pai, para redimir e vencer o pecado, concretizando assim a salvação da humanidade. E, para que em cada tempo e em cada lugar, cada homem possa usufruir da misericórdia de Deus, Jesus deixou-nos o sacramento do Perdão. Deste modo, quem acredita em Jesus, quem tem consciência de ser pecador e sente arrependimento, quem tem humildade para confessar os pecados e implorar o perdão, quem deseja realmente viver na graça e na paz de Deus, esse viverá uma experiência única e inexcedível e poderá exclamar: nunca vi coisa assim, não há experiência igual, o perdão de Deus vale mais do que todas as curas e milagres! “Nunca vimos coisa assim”. Todos podemos e somos chamados a fazer esta experiência. Na verdade, Jesus deseja dizer a cada um de nós: “Filho, os teus pecados estão perdoados”. E nós, que bem precisamos do seu perdão, não o impeçamos de se mostrar misericordioso para connosco. A fé do paralítico deu a Jesus a oportunidade de lhe perdoar os pecados – a maravilha de Deus que os homens nunca tinham visto de um modo tão patente e próximo. A fé é indispensável para que Deus possa realizar em nós as maravilhas da salvação. E só à luz da fé somos capazes de captar e maravilhar-nos com as obras de Deus. O homem que não acredita não pode impedir Deus de o amar, pois Deus ama sempre e a todos. Porém, impede que o amor e o perdão de Deus cheguem ao seu coração, ou seja, não deixa que Deus o salve.
Pe. José Manuel Martins de Almeida
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