Santíssima Trindade “… também somos herdeiros de Deus”
Padre Hugo Martins
Paróquia de Padre Hugo
Santíssima Trindade
“… também somos herdeiros de Deus”
No discurso que dirige ao povo, Moisés tenta incutir no coração de todos os israelitas que o verdadeiro Deus, Aquele em que eles acreditam, é um só. Na verdade, a fé do povo de Israel, fé que o distingue de todos os outros povos, assenta na unicidade de Deus: “é o único Deus … e não há outro”. O Deus de Israel é o único Deus que existe. Os outros deuses apenas existem na imaginação dos homens e a sua realidade limita-se às imagens esculpidas que os homens fazem deles.
Este único Deus é o Deus que criou o mundo e o homem; o Deus que fala com os homens e os trata como amigos; o Deus que escolhe Israel como seu povo, intervém e realiza obras extraordinárias em seu favor, liberta-o da terra do Egipto e mantém com ele uma relação privilegiada ao longo da sua história. Este único Deus surpreende e maravilha! Um Deus assim convém ao homem e merece ser acreditado e amado por ele. De resto, é isso mesmo que Deus quer e espera: ser reconhecido e aceite como o único Deus e ser amado com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças (Dt 6,4-5).
Este único Deus tem um Filho! Uma surpresa e, à primeira vista, um grande paradoxo! Esta é, sem dúvida alguma, a maior e menos esperada revelação de Jesus: Ele é o Filho amado de Deus. Deus confirma-o, quer no contexto do Baptismo de Jesus (Mc 1,11) quer no da sua Transfiguração (Mc 9,7). Jesus revela que entre Ele e o Pai existe um conhecimento recíproco e total (Mt 11,27). Mais, afirma que existe uma unidade perfeita entre os dois, como sendo um só (Jo 17,22). Manifesta e prova ainda que tem o poder exclusivamente divino de perdoar os pecados dos homens, curando o paralítico (Mc 2,1-12).
Estes ditos e factos levam muitos judeus a acusar Jesus de blasfemar. Eles não conseguem entender, muito menos aceitar que a unicidade de Deus possa ser compatível com esta filiação divina de Jesus. Porém, muitos outros, como Pedro (Mt 16,16) ou o centurião romano (Mc 15,39), descobrem e confessam que Ele é realmente o Filho de Deus.
O único Deus é Pai e Filho! Mas as surpresas não ficam por aqui. Na etapa final da sua missão, Jesus anuncia aos apóstolos que Ele e o Pai enviarão ao mundo o Espírito Santo, apontando qual será a sua respectiva missão, como vimos no precedente comentário. O Espírito Santo é o Espírito da verdade e do amor que procede do Pai e do Filho e que partilha o mesmo ser e a mesma vida. O mandato de baptizar e o modo como é formulado: “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, deixa bem claro que o Pai, o Filho e o Espírito Santo se situam no mesmo nível do ser e do agir, e que as três pessoas divinas querem e actuam, de igual modo, a salvação dos homens que acreditam.
“… também somos herdeiros de Deus”. O único Deus, o Deus que é uma família, quer agregar os homens à sua família divina, fazer de todos eles seus filhos e herdeiros. Na verdade, aqueles que acreditam em Cristo e são baptizados no Espírito Santo nascem como filhos de Deus. Não admira, por conseguinte, que o Espírito dê testemunho “de que somos filhos de Deus” e nos capacite para invocar e chamar Deus “Abba, Pai”, ou seja, nos ajude a tomar consciência e a viver a nossa filiação divina. E, na medida em que vivemos como filhos, o que implica identificar-nos com Cristo também no sofrimento, tornamo-nos com Ele herdeiros de Deus.
A herança de Deus não é apenas o que receberemos d’Ele após a nossa morte. Já durante esta vida, nós herdamos Deus: o mundo que habitamos e desfrutamos; os talentos e capacidades com que nos dotou; as graças e a vida divina que nos comunica, de modo especial, através dos sacramentos; o amor que partilha connosco através das pessoas que percorrem os nossos caminhos ou nos acontecimentos da vida quotidiana. Após a morte, vem a vida eterna. Esta não é um mero viver para sempre. É, muito mais, o viver em Deus, no seio da família divina, usufruindo plenamente do seu amor infinito. “Somos herdeiros de Deus”, ou melhor, Deus é a nossa herança! Não é algo que recebemos de Deus, mas é Deus que se oferece totalmente a nós. Quando chegar esse momento, compreenderemos a lógica e sentiremos a vantagem de o único Deus ser Trindade!
Pe. José Manuel Martins de
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