Bismula – Fomos ao mercado mensal.

O Mercado na Bismula (Sabugal) remonta há séculos atrás. Se consultarmos alguma documentação histórica, encontramos referências ao Mercado Bismulense nos tempos da Restauração de Portugal.

Assim, no último dia de cada mês, há Mercado na Bismula. Já lá vão os tempos em que as ruas se enchiam de feirantes: a Praça para compra e venda de gado caprino e ovino, o Largo da Igreja era reservado para aos sapateiros, o Largo de Santa Bárbara tinha o mercado das vacas, na Ladeira e na Relva encontravam-se espaços para tendeiros, tabernas ambulantes, vendedores de cereais, ourives e relojeiros.

Na década de cinquenta e seguintes do século passado, com a sangria da emigração e a queda da Ponte do Pereiro, que dificultou o acesso das gentes residentes nas zonas mais fronteiriças, e espanholas, o Mercado da Bismula ficou muito reduzido, quase extinto.

Hoje o palco do Mercado está reduzido ao espaço da Relva, já sem as amoreiras pombalinas apetrechadas com o seu majestoso poial, onde as nossas avós amassavam o linho; sem as históricas pedras-expositoras e sem o tronco do ferrador. Como herança dos nossos antepassados resta o poço arrolanado, que dava de beber a uma parte da população, função que lhe terá permitido resistir às intempéries do tempo que tudo leva. Infelizmente hoje está encerrado e nem à dor dá de beber.

A Relva é um grande largo empedrado, vazio, desértico, mas que no dia 31 de Agosto encontramos com alguma vida de negócios. Fomos feirar e ouvir os mercadores.

Romeu Afonso e David Ladeira são dois jovens amigos e legítimos herdeiros das taberneiras que se deslocavam da Miuzela ao Mercado da Bismula. Em machos e mulas potentes, transportavam os pipos de vinho, acompanhados de bons petiscos nas suas tendas móveis. Alegravam os corações e revigoravam a alma. Os muares, de regresso, agradeciam o alívio da carga, o mesmo não se podia dizer dos bebedores, que levavam a cabeça bem pesada para casa.

Em largas mesas convive-se, petisca-se, come-se frango assado e febras; a gordura pinga dos lábios até ao queixo, onde é apanhada por uma fatia de pão caseiro e devolvida à boca. Estes guardanapos de trigo não deixam escapar uma gota de gordura ou tinto (colheita caseira do ano). Todo o material é comestível, sobretudo quando namoramos o expositor de carnes frescas, enchidos, presuntos e queijos.

Adérito Gonçalves Fernandes, da freguesia da Rebolosa, faz o Mercado há vinte e cinco anos. É o fabricante, na Zona Arraiana, do Bucho, uma das maiores delícias do Concelho do Sabugal. Diz que as vendas são uma incógnita, porque se noutros mercados há mais gente, na Bismula há os afetos. Em boa verdade, a irmã Celeste Gonçalves Fernandes casou com o Manuel Ferreiro e, portanto, aqui tem mais clientes certos.

Joaquim Vieira, de Rapoula do Côa, comprou o alvará ao seu conterrâneo Carlos. Vende há mais de quinze anos roupas, sobrevivendo numa tenda ao vento, à chuva e ao frio. Os meses do Verão (Julho e Agosto) e o Natal são os mais propícios em vendas.

Célia Santos e Afonso Esteves, de S. Estevão e etnia cigana, são vendedores ambulantes de roupas (principalmente calças) há mais de cinquenta anos.

Joel Soares vem da Guarda para vender toda a espécie de calçado, alegando que as pessoas mais idosas não se deslocam com muita facilidade para outros mercados como o de Alfaiates, Vila do Touro, Soito ou Miuzela. Além disso, na Bismula ainda tem a possibilidade de comprar. “Não podemos abandonar estas gentes, que já estão longe de tantos serviços. Às vezes só vendo um par de sapatos, mas não podemos deixar morrer tudo isto. Estas gentes são simples e honestas”.

Francisco Pires, de Rapoula do Côa, dedica-se a servir frangos assados há dezassete anos na Bismula. No estilo e no sabor não fica atrás da célebre churrasqueira “A Valenciana” em Campolide (Lisboa), onde se provam as melhores carnes ao calor do carvão. Francisco queixa-se que “já foi um grande mercado, agora anda muito fraco”.

David Soares, de Famalicão da Serra, vende toda a qualidade de sapatos há seis anos. “Às vezes não compensa vir, mas em casa não se faz negócio”.

Estes foram os heróis que no último dia de Agosto se deslocaram à Bismula. São atores principais no Mercado Bismulense, que merecem apoio e manifestaram o seu desagrado por não disporem de água na Relva e nunca ali ter aparecido alguém da Junta de Freguesia. “Pelo menos para nos dar os bons-dias, já que a crise é para todos…”, acrescenta um feirante.

 

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Setembro/2014

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