Não gosto destas novas experiências sociais!

Hoje apercebi-me que ter telemóvel já não é tão fixe como era há 12 anos atrás, quando eu tive o meu primeiro… Que não posso dizer qual é, porque ninguém vai acreditar… Apercebi-me que deixei de ter aqueles sentimentos à flor da pele quando falava com as pessoas…  E apercebi-me também que os jovens de hoje em dia não sabem o que isso é…

Havia aquele entusiasmo de enviar aquela mensagem aquela pessoa tendo a certeza que a fazias sorrir. Havia aquela adrenalina de compactares tudo o que querias dizer numa mensagem pois, o saldo era muito limitado. Havia aquela nova linguagem que criámos só para conseguirmos dizer tudo, o que se tornou moda. Não havia era sequer a ideia, que passados poucos anos, iríamos conseguir enviar fotografias, ouvir musica on-line e ver vídeos, filmes, televisão em direto, ver perfis e publicações de pessoas que estão na China, etc… Quem poderia imaginar que passados esses belos anos, teríamos a nossa vida hipotecada a um ecrã, agora ele sem teclas (outra novidade estonteante) e às suas aplicações? Quem conseguia imaginar que iríamos deixar de sentir vontade de vermos as pessoas no dia a seguir só porque falamos com elas por Skype ou FaceTime…? Sim, deixámos de querer! Quem diria que nos íamos tornar um animal (quase) não social…?

Mesmo que as pessoas achem que as «redes sociais» contribuem para a socialização mundial, ou para aproximar as nações, eu sou obrigada a discordar! Totalmente!

O conceito de Experiência Social mudou com os tempos… Individualmente muda a partir do momento que entramos em rede… Para o resto do mundo muda quando te fica a conhecer. E isto acontece ao mesmo tempo. O que existia antes já não é bom, já não é nada comparado com o que tens agora…

Uma sociedade é um conjunto de pessoas, que partilham experiências, gostos, propósitos, costumes, preocupações… enfim uma data de coisas… Além disso a sociedade em geral considera o facto de um indivíduo ser bastante limitado na sua unidade autónoma, pois o macaco é um ser naturalmente social, (sobre)vive em conjunto. E este conjunto só sobrevive e vinga se comunicar. Etimologicamente comunicar significa partilhar algo, pôr algo em comum. Para existir esse processo comunicativo é necessária uma emissão de sinais (sons, gestos, indícios…) com a intenção de dar a conhecer uma mensagem. Ora portanto, eu acho que isso está a deixar de acontecer!

Escondemos as nossas verdadeiras mensagens atrás de um vidro caríssimo! Procuramos conforto nos «gostos» dos amigos com quem não falamos há anos, mas que estão sempre on-line, procuramos sentir-nos mais belos nos filtros que a câmara nos oferece. Tenho 1600 e tal amigos, mas nenhum me conhece! Procuro sentir-me adorada no teu perfil! E no meu!

Eu ainda posso dizer o que são experiências sociais, porque já as tive… Há uns anos… E todos os que nascem agora já não as vão ter! Nem nunca as vão perceber.

Sorrir porque sorriste para mim, é uma experiência social. Abraçar-te porque também me abraçaste, dizer-te que a tua pele é macia, porque lhe toquei de verdade, dizer que tens a voz parecida à da minha avó, porque vos ouvi verdadeiramente aos dois, saber o verdadeiro sabor da vitória e da sabedoria tradicional, porque ainda sei jogar ao burro e ganhei-te, e deste-me um cachaço por causa disso.

(Transmitindo conhecimento, segundo Francois Dubbet, 1994, uma experiência social «(…)designa as condutas individuais e colectivas dominadas pela heterogeneidade dos seus princípios constitutivos e pela actividade dos indivíduos que devem construir o sentido das suas práticas no bojo desta heterogeneidade»)

Há processos irreversíveis, eu acho… Habituar-me a esta realidade? Com certeza, sem esforço nenhum! Ficar feliz com ela? Não penso nisso! Preocupar-me com as crianças que nunca vão ter estes sabores? Muito! …

Deixo uma sugestão de um vídeo, que provavelmente muitos já viram, mas que ainda faz pensar, mesmo depois de ver três vezes! Mas lá está, não desliguei o telemóvel…  Estava a sacar uma actualização do «Instagram»…

Suzana Santos

 

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