Maria, o modelo da Igreja
Ā«A Igreja nĆ£o Ć© um cenĆ”rio; nĆ£o Ć© uma simples instituição; nem Ć© somente uma das habituais entidades sociológicas – ela Ć© Pessoa. Ɖ Mulher. Ɖ MĆ£e. Ɖ um ser vivo.
A compreensĆ£o mariana da Igreja Ć© o mais forte e decisivo contraste de conceito de Igreja puramente organizativo e burocrĆ”tico. Nós nĆ£o podemos fazer a Igreja, nós devemos ser a Igreja. E somente na medida em que a fĆ©, para alĆ©m do fazer, conforma o nosso ser, nós somos a Igreja e a Igreja estĆ” em nós. Ɖ somente no ser marianos que nos tornamos Igreja.
Também na origem, a Igreja não foi feita, mas nasceu. Nasceu quando na alma de Maria emerge o fiat. Este é o desejo mais profundo do Concílio: que a Igreja desperte nas nossas almas. Maria mostra-nos o caminho» (J. Ratzinger, A eclesiolodia do Vaticano II).
Neste caminho eclesial, traçado pelo concílio Vaticano II, devemos ter como horizonte da nossa pastoral, chegar à consciência clara de que o que realmente move a Igreja na sua acção pastoral é a convicção de que sem uma confiança firme e a comunhão profunda com Cristo e em Cristo, nada se pode fazer (cf. Jo 15,5). Devemos, por isso, ler e saber discernir os sinais de Deus na sociedade actual, como apelos e luz que permitem, à Igreja, vislumbrar o horizonte para o qual se devem orientar e identificar novos caminhos ou possibilidades inovadoras, em ordem à sua missão pastoral.
No ConcĆ­lio Vaticano II, a Igreja reviu-se nas palavras de S. JoĆ£o (1 Jo 1, 2-3), nas quais declara que os apóstolos e toda a comunidade dos cristĆ£os viviam em comunhĆ£o com Deus e com Seu Filho Jesus Cristo (cf. DV 1). Por esta comunhĆ£o com e em Deus, que Ć© amor, a Igreja torna-se ā€œo sacramento, ou sinal, e o instrumento da Ć­ntima uniĆ£o com Deus e da unidade de todo o gĆ©nero humanoā€ (LG 1).
Um diagnóstico e ao mesmo tempo um desafio perante e face a esta realidade, podemos vĆŖ-los nas palavras do documento Ā«Repensar juntos a pastoral em PortugalĀ»: A Igreja vive mergulhada e dispersa em inĆŗmeras actividades, encontros, jornadas, congressos, instituiƧƵes… que parecem nĆ£o ter ligação entre si, nem ressonĆ¢ncia, isto Ć©, dar vitalidade e inovação significativa na vida dos cristĆ£os, nem irradiar sinais de esperanƧa na sociedade em que vivemos. HĆ” nela muitas instituiƧƵes sociais, meios de comunicação social, instituiƧƵes de ensino e assistĆŖncia… mas parecem deter-se no seu Ć¢mbito próprio, sem serem vistas e reconhecidas. E nem elas mesmas parecem sentir-se e agir como membros diferenciados de um só corpo – a Igreja.
O processo de catequese, sobretudo na infância e adolescência, foi recentemente renovado e alargado, mas constata-se que, exceptuando uma pequena percentagem, não gera cristãos vivos e empenhados; impulsionados para agir e comunicar aos outros as experiências da sua vivência cristã. No que se refere aos jovens e aos adultos, não se têm conseguido grandes avanços numa formação sólida e coerente da fé, de modo a acompanhar os diferentes momentos da vida das pessoas, induzindo-as a uma clara identidade cristã e eclesial.
Mas ao mesmo tempo que Ć© visĆ­vel, em vĆ”rios aspectos, um certo decrĆ©scimo na Igreja em Portugal, tambĆ©m hĆ” sinais novos: na sequĆŖncia do sopro conciliar do EspĆ­rito, a vida da Igreja e dos cristĆ£os tornou-se mais simples e fraterna, desenvolveu-se bastante a participação laical, apareceram ou cresceram significativamente novos movimentos, comunidades e associaƧƵes de fiĆ©is, com propostas inovadoras de evangelização, de vida comunitĆ”ria e de testemunho da fĆ© no mundo…
A resposta da Igreja a estes desafios temos de encontrÔ-la no Amor, porque só o amor é credível. Eis a razão pela qual Maria nos mostra o caminho do Amor, caminho que todos devemos percorrer, tal como aparece nas bodas de CanÔ e junto da cruz, no momento em que o amor crucificado manifesta toda a sua profundidade.
«Fazei o que Ele vos disser!»
A Ôgua é depositada em seis talhas de pedra destinadas às purificações dos judeus, e que tinham ficado vazias. O número seis simboliza a imperfeição desses ritos. Eram de pedra como as tÔbuas da Lei (Ex 32, 15), como o coração do povo judeu (Ez 36, 26). Grandes, pesadas, inamovíveis. Para cúmulo de imperfeição, diz-se que estavam vazias.
O vinho Ć© sinal de amor e de alegria (Sl 104, 5); Ecl 10, 19). O CĆ¢ntico dos CĆ¢nticos apresenta-o como sĆ­mbolo do amor entre o esposo e a esposa, que, por sua vez, simboliza o amor de Deus e do povo (Ct 1, 2; 7, 10; 8, 2). Esdras pede ao povo que celebre a renovação da AlianƧa com vinhos generosos (Ne 8, 10). O vinho simboliza a totalidade do banquete, banquete de bodas a que tantas vezes se compara o Reino de Deus. Apenas Maria, que sendo do povo judeu jĆ” pertencia ao novo Israel, se dĆ” conta que nĆ£o tĆŖm vinho. Ɖ necessĆ”rio que os antigos ritos vazios dĆŖem lugar ao novo banquete do Reino.
Maria, situada ainda na Antiga alianƧa, converte-se em sĆ­mbolo do novo Israel – a Igreja. Atenta Ć s necessidades dos irmĆ£os, deseja o vinho novo do Reino e, com plena confianƧa no seu Filho, apela a que todos escutemos a Sua Palavra: ā€œFazei o que Ele vos disser!ā€, como um eco da palavra do Pai (Mc 9, 7).
«Mulher, eis o teu filho!» Depois disse ao discípulo: «eis a tua Mãe»
Ɖ exclusiva do IV Evangelho a palavra que Jesus dirige a Maria e ao discĆ­pulo amado (19, 25-27). JoĆ£o tinha referido Maria no inĆ­cio do ministĆ©rio pĆŗblico de Jesus, nas bodas de CanĆ”, quando lhe disse que ainda nĆ£o tinha chegado a Sua hora. Ausente em todo o Evangelho, volta a mencionĆ”-la no final, quando chegou a sua hora. O vocativo ā€œmulherā€, repetido em ambos textos, estabelece uma mais estreita relação entre os dois episódios. As palavras estabelecem uma relação de maternidade / filiação entre Maria e o discĆ­pulo presente, representativo de todo o discipulado presente e futuro. Os sofrimentos de Cristo na cruz sĆ£o como as dores de parto nos deslumbramentos da Igreja, que Ć© a nova Eva arrancada, em primeiro lugar, da costela de AdĆ£o. Maria aparece assim como a mĆ£e da Igreja.
Maria, «Estrela da Nova evangelização»
«Na manhã do Pentecostes, Ela presidiu na oração ao iniciar-se a evangelização, sob a acção do Espírito Santo: que seja ela a Estrela da evangelização sempre renovada, que a Igreja, obediente ao mandato do Senhor, deve promover e realizar, sobretudo nestes tempos difíceis mas cheios de esperança» (EN 82).
A sua relação, a sua obediĆŖncia, a sua humildade e a sua fĆ© firme, inabalĆ”vel, dĆ”-nos a conhecer o que significa seguir a Jesus – o horizonte da Igreja.
FƔtima, 23 de Agosto de2012
Peregrinação da diocese da Guarda
† António Moiteiro, Bispo auxiliar de Braga