BARBEARIA CENTENÁRIA

Estamos em pleno Bairro de Campo de Ourique em Lisboa, na Rua Saraiva de Carvalho com o número 128 de identificação, um edifício centenário, próximo da casa de Fernando Pessoa, quem lá passa não fica indiferente.

Entra-se no estabelecimento e, num quadro religiosamente pendurado, lemos atentamente os termos de um contrato: arrendamento datado de 1 de Julho de 1915, com o compromisso dos arrendatários pagarem cinco escudos mensais. Nada nesta casa está ao acaso, tudo muito bem arrumado e limpo. Nas paredes, colocados com mestria, desfilam inúmeros quadros e prémios. Estamos na histórica Barbearia Diamante – Cabeleireiro de Homens, Lda.

Neste local, trabalha há mais de cinquenta anos Manuel Pires Vieira, natural do Carvalhal do Côa, filho de Joaquim Gonçalves Vieira, “o Tio Vieira“, que a zona nascente da raia sabugalense tão bem conheceu. O filho desde muito novo seguiu as pisadas do pai em Lisboa. Cedo apendeu com o seu progenitor que um bom cabeleireiro necessita de sensibilidade e psicologia.  

As raízes arraianas são cabelos difíceis de cortar. Ainda hoje celebra no dia 25 de Abril, com muita fé e religiosidade, a Festa de São Marcos. Diz-se que os agricultores possuidores de animais, levavam os bois com sacos de sementes ao lombo, para com os chifres tocarem no andor do Evangelista e dar uma volta à Capela do Santo, a fim de receber a bênção nas sementeiras e nos cultivos a realizar. Era uma Romaria muito concorrida, até aconteceu que um dos portadores e mordomos do Santo, de alcunha “Salazar”, deixou cair a imagem.

Na Barbearia encontramos peças de barbear únicas. O filho do “Tio Vieira“ soube preservar esse património. Aqui observamos caixas com seringas, agulhas, máquinas e navalhas de barbear, assentador, pedras de afiar, um pequeno ferro, que na ponta tem dois bordos para descarnar os dentes doentes e facilmente serem arrancados. Aqui temos pinças, tesouras e o que mais chama a atenção é um conjunto de vasos de metal de diversas proporções, onde eram guardados os medicamentos, moídos na Farmácia de Cerdeira do Côa, frutos das qualidades sanitárias exercidas pelo Senhor Naves. Não tenho dúvidas de que naquela época o “Tio Vieira“ salvou algumas vidas em terras esquecidas pela saúde pública.

Há anos que o nosso barbeiro se apresenta ao serviço todos os dias: “Criamos empatia com os clientes que vêm aqui há mais tempo. Aqui já foram “tosquiados” poetas e políticos de renome. Dizem que o Fernando Pessoa utilizava estes serviços de barbearia, cada dia apresentava-se com um nome diferente, mas o cabelo era o mesmo. Temos um cliente que já se divorciou três vezes, mas nunca deixou de vir a esta casa para cortar o cabelo”.

Entre inúmeras histórias, o nosso barbeiro conta duas muito interessantes. Um dia, um cliente pediu-lhe um corte fatal de cabelo. Perante tão estranho pedido, informou-o que era barbeiro há muitos anos e desconhecia esse corte. O cliente levantou-se da cadeira e desatou numa correria louca pelas ruas de Campo de Ourique. Veio mais tarde a saber que sofria de uma fatal doença psiquiátrica.

Na abertura da barbearia, apareceu-lhe um sem-abrigo acompanhado por um cachorro, solicitando-lhe uma moeda. O nosso barbeiro estava a abrir a porta e disse-lhe: “não tenho dinheiro aqui, se quiser faço-lhe gratuitamente o corte de cabelo e a barba”. O pedinte aceitou o convite. Quando o nosso barbeiro estava a cortar as longas barbas do Homem, o cachorro começou a ganir como a reclamar igual tratamento.  Feito o serviço, o cão foi sentado na cadeira e o nosso barbeiro deu-lhe umas valentes e harmoniosas tesouradas. O cão lambeu as mãos do nosso barbeiro, agradecendo o seu novo “look”, e saltou para o colo do dono. Despediram-com um aperto de mão e o nosso barbeiro viu os primeiros clientes do dia desapareceram na neblina da madrugada.  

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Junho/2017

António Alves Fernandes

António Alves Fernandes

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