Introdução ao retiro: Ver o Reino de Deus entre nós, orientados pelo Ev. de Lucas

 

Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, Jesus respondeu-lhes:«O Reino de Deus não vem de maneira ostensiva. Ninguém poderá afirmar: “Ei-lo aqui ou Ei-lo ali, pois o Reino de Deus está entre vós.» (Lc 17,20-21)

 

O Reino de Deus não vem de maneira ostensiva. Ninguém pode dizer, com um ponto final, está aqui ou ali, é isto ou aquilo. Só sabemos, pelo sentido da fé, que já está no meio de nós. É preciso aprender a vê-Lo e reconhece-Lo, mas também dar-nos conta do que nos impede de O ver.

Este retiro vai tentar abordar o tema: “Como Ver o Reino de Deus entre nós?”, guiados por Lucas. Além de ser o evangelista do ano, escreveu para cristãos que já conhecem Jesus e outros evangelhos escritos: “resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los a ti por escrito e pela sua ordem, caríssimo Teófilo, a fim de reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído.” (1,3-4) Ou seja, Lucas escreve para nós, que nos consideramos “Teófilos”, amigos de Deus, e que já conhecemos Jesus, mas precisamos de redescobrir a solidez da fé em que fomos instruídos e o rosto de Deus em quem acreditamos.

 

Estamos no final do Ano da Fé e sob a novidade do Espírito que brota do Papa Francisco. Sem o reavivar da fé, a nova evangelização parece-se com propaganda, marketing proselitista que pretende engrossar o grupo de fregueses da nossa religião. É a fé que abre a porta ao encontro com Cristo, como Pessoa invisível, mas mais real do que a visível, que nos fecunda o tempo com a esperança.

 

Jesus passou a maior parte da sua vida a aprender a ser “filho do homem”. Mas a certa altura, sente necessidade de buscar algo mais para além do horizonte da carpintaria de Nazaré. Por isso, busca João no Jordão para ser batizado, faz a experiência do Céu aberto, da descida do Espírito e da filiação divina, e deixa-se conduzir ao deserto pelo Espírito (4,1). No deserto dá-se conta que se identificava de tal forma com o seu povo, que tinha assimilado as suas expetativas messiânicas. Foi no silêncio, na escuta da Palavra de Deus e no jejum que se dá conta do que são os pensamento de Deus e os pensamentos dos homens.  A verdadeira inculturação acontece neste imergir no povo e afastar-se para imergir em Deus e ver melhor a sua missão junto do povo. O pastor deve cheirar a ovelha e a incenso.

Jesus é conduzido pelo Espírito a Nazaré. Aí toma a palavra e apresenta-se como “Filho da Escritura”, no “hoje” da salvação. No entanto, os seus conterrâneos continuam a vê-lo como “filho de José. Ele apresenta-se como “Profeta”, ao citar os provérbios, mas o povo quer deita-lo do penhasco abaixo. Jesus apresenta-se como boa nova para os pobres e iniciador de um “ano de graça”, mas o povo não achou graça nenhuma. Jesus por fora era igual, mas por dentro vinha diferente. Tinha redescoberto a sua identidade de enviado do Pai e tomou consciência da vontade de Deus, da Missão para a qual foi enviado, da sua dignidade de Filho de Deus, do seu caminho.

Como Jesus queremos aproveitar este tempo de retiro para ver a vida e o nosso ministério a partir de Deus. Cultivar o silêncio para ouvir melhor, afastar-se das canseiras e preocupações do dia-a-dia para ver melhor,  abster-se de palavras, comentários e distrações para rezar melhor, escutar e visualizar os reinos que não são de Deus, mas que nos habitam como desejos, sonhos, planos, reações, desculpas, sombras, ressentimentos. Como Jesus, vamos buscar luz para identificar as tentações de sucessos fáceis, de glórias humanas, jogos políticos, relações afetivas pouco puras, pensamentos demasiado humanos, dependências materialistas pouco evangélicas, caprichos pouco apostólicos. Como Jesus, queremos dizer não a essas tentações e aderir à vontade de Deus para cada um de nós. Como Maria, queremos dizer com verdade: Faça-se em mim segundo a Tua vontade.

Durante o retiro iremos andar à volta das palavras ver, olhar, reconhecer, ouvir. No final, queremos voltar para as Nazarés das nossas comunidades, guiados pelo Espírito, tal como Jesus quando saiu do deserto. Vamos tentar fazer este caminho com seriedade, empenho, esperança, humildade e oração. Queremos como Simeão, poder rezar com verdade: (Lc 2,29-32)

 

«Agora, Senhor, segundo a tua palavra,deixarás ir em paz o teu servo, porque meus olhos viram a Salvação que ofereceste a todos os povos, Luz para se revelar às nações e glória de Israel, teu povo.»

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