Então, olhando-os a todos em volta (6,10)

Jesus tem um horizonte que lhe permite ver a verdade total e não apenas aparente (6,8). Lucas quer ensinar-nos a ver com horizontes largos e abertos, por isso, apresenta-nos Jesus em relação com as diversas dimensões da vida.

O tempo de Jesus deve ser visto a partir do Tempo de Israel e do Tempo da Igreja, guiados pelo Espírito Santo que inspira e move toda a História da Salvação. Mas o tempo de Jesus também está integrado na história política e social da época: a anunciação a Zacarias é no tempo de Herodes, rei da Judeia (1,5); o nascimento de Jesus acontece por altura do recenseamento pedido por César Augusto, na altura em que Quirino, governador da Síria (2,1-2);  a pregação do Batista começa: “No 15º ano do reinado do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes, tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe, tetrarca da Itureia e da Traconítide, e Lisânias, tetrarca de Abilena, sob o pontificado de Anás e Caifás (3,1-2); Herodes prendeu o Batista (3,19-20).

O ser humano é homem e mulher, por isso, procura apresentar homens e mulheres como modelos e atores: Zacarias e Isabel, Maria e José, Simeão e Ana, João Batista e Jesus, ressurreição do Filho da viúva de Naim (7,11-17) e da filha de Jairo (8,40-56),  discípulos homens (6,12-16) e mulheres (8,1-3), homem (6,6-11) e mulher curados ao sábado (13,10-17), mulher pecadora (7,36-50) e Zaqueu, salvos pela fé (19,1-10), Juiz iníquo e viúva pobre (18,1-8), a experiência da ressurreição feita por mulheres (24,1-11) e por homens (24,12ss).

Lucas coloca outras antíteses: Templo e casa, Judeia e Galileia,  Cafarnaum e Nazaré, bem-aventuranças (6,20-23) e maldições (6,24-26), ricos e pobres (14,12-14; 16,19-31), contemplação e ação (10,3-42), samaritanos cheios de fé e compaixão e sacerdotes/levitas insensíveis e legalistas (10,29-36; 11,5-8); fariseus e cobradores de impostos (18,9-14), envio dos doze (9,1-6) e dos setenta e dois (10,1-11), a família de sangue de Jesus e a família dos que o escutam e vivem o seu evangelho (8,19-21)…

Lucas apresenta o que pensam sobre Jesus o povo, os escribas, os fariseus, os poderosos, os sacerdotes, os discípulos, os estrangeiros, os da sua terra, o demónio, os pecadores… Apresenta também que pensa o próprio Deus: no batismo e no monte da transfiguração, ou por meio de anjos: na anunciação, aos pastores e no túmulo.

Lucas fala-nos do presente, mas aponta-nos para o futuro. Coloca o olhar na glória e messianismo de Jesus, mas manda-nos calar quando não aceitamos um messianismo humilde e servo. Fala-nos de que os discípulos têm o seu nome inscrito no Céu, mas também devem seguir o Mestre sem omitir nenhuma Palavra ou preceito de amor.

Com isto, Lucas quer dizer-nos o que nos ensinou Bento XVI na Caritas in Veritate, que a realidade é complexa e precisa de ser vista a partir de várias dimensões e centros. Jesus esteve 30 anos a conhecer e a experimentar a vida humana, a partir da Galileia, da humildade do trabalho manual, do convívio com os seus conterrâneos, na contemplação da natureza e de cada pormenor rotineiro da vida, dos preconceitos raciais e religiosos que dislexiam a realidade… Mas sentia necessidade de retirar-se para lugares isolados e sagrados, como o Templo, o deserto, os montes, a madrugada… para se encontrar com Deus e ver a realidade a partir do Alto, da verdade do Amor, do horizonte da esperança, da perspetiva da vontade de Deus. É neste subir ao monte da oração e encontro com Deus e descer à planície da vida e da cruz, que cria o equilíbrio entre ser Filho de Deus e Filho do Homem, entre a contemplação e a ação, entre o trabalho e a oração, entre o presente e o futuro, entre o rebanho unido e fiel e a ovelha perdida, entre o Antigo e Novo Testamento.

O diálogo e a abertura à verdade faz-nos humildes e peregrinos da verdade. A fé como um grão de mostarda e a confiança de criança faz-nos acreditar no impossível, mas a vigilância ajuda-nos a resistir às tentações de ser igual a todos e e de ter medo de fazer a diferença.

Hoje balança-se entre a tolerância e o nivelamento de todas as propostas, e a posição de defesa e de medo de dialogar com o diferente. A primeira leva ao relativismo e ao sincretismo da Nova Era. A segunda refugia-se no fundamentalismo e na intolerância. O sincretismo respira-se nos MCS, o relativismo leva-nos a confundir direitos iguais para todos, tolerando e defendendo a legalização do aborto, da eutanásia, do casamento gay, do divórcio… O fundamentalismo intolerante revela-se no medo do diferente, na xenofobia, no fechamento ao diálogo com todos os que não pensam como eu. A especialização do saber enviesa a visão do conjunto e torna-nos mais manobráveis.

A formação inicial e permanente pode balançar entre uma abertura, sem pontos de referência nem valores fundantes de seguimento e identidade espiritual, ou fechar-se ao mundo e aos outros na Igreja com medo de perder candidatos.  O ideal, diz-nos S. Lucas, não é fugir das pessoas, mas prepara-las para a tentação, para viverem no mundo sem serem do mundo, para serem fermento, em diálogo com o mundo que Jesus quer redimir e curar. É por isso, que Lucas insiste tanto no facto de Jesus acolher e comer com os pecadores.

Como vejo o mundo, um perigo a que quero fugir ou um lugar de missão que quero fermentar com a fé em Jesus Cristo? Sinto-me um peregrino da verdade que cultiva o diálogo com o diferente na comunidade e na sociedade em que vivo? Aguento ler jornais ou escutar opiniões diferentes da minha para descobrir e purificar as razões da minha esperança, ou prefiro a atitude de me refugiar no já conhecido e de falar com aqueles que sei que têm a mesma opinião? Não será este o grande desafio da Nova Evangelização?

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