Ergueu os olhos ao Céu (Lc 9,16) e “falar com um amigo durante a noite” (Lc 11,5)

O Evangelho de Lucas é conhecido como o Evangelho da oração.

1) Apresenta cenários de oração a abrir (Lc 1,10 e 13; 2,37) e a fechar (Lc 24,53), formando aquilo que se chama uma inclusão literária ou envelope. Lucas é uma proposta de “lectio divina”.

2) Apresenta mais vezes Jesus a rezar.  Aos 12 anos no Templo (2,41-51); durante o batismo (3,21-22); no deserto (4,1-13). Na sinagoga (4,16.33; 13,10;) e no Templo. Sozinho para discernir (4,42 e 5,15-16); escolher os doze (6,12); perguntar aos discípulos quem era Ele 9,18; no monte Tabor 9,29; Espontaneamente (10,21); Reza por Pedro (22,31-32); no Monte da Oliveiras (22,39-46); na Cruz (23,34) e entrega o seu espírito ao Pai  (23,46); A sua vida não se entende sem esta relação com o Pai, por isso, é a 1ª (2,49) e a última Palavra (23,46).

3) Apresenta-nos as mais belas figuras de oração: Maria, com o “magnificat” (1,46-55); Zacarias, com o “benedictus” (1,68-79); Simeão, com o “nunc dimittis” ( 2,29-32); os anjos, com o “gloria in excelsis” (2,14).

4) Jesus é apresentado como modelo e Mestre de Oração: ensina a rezar ao Pai (11,1-4), a rezar com persistência (11,5-13; 18,1-8), e com humildade (18,10-14).

Como Bento XVI, Lucas quer ensinar-nos na transfiguração (9,28-36) que: “A existência cristã consiste num contínuo subir ao monte do encontro com Deus e depois voltar a descer, trazendo o amor e a força que daí derivam, para servir os nossos irmãos e irmãs com o próprio amor de Deus.”. O cristão, sem esta relação permanente, persistente e humilde com Deus, é uma ação sem plano diretor, uma fé sem pés no chão, uma consagração sem alma nem paixão divina, a Igreja uma organização piedosa sem a marca de Cristo. Temos que aprender a ser Marta e Maria, unindo contemplação e escuta do Senhor ao serviço e entrega aos irmãos (10,38-42).

O sacerdote deve aprender com Jesus a “erguer os olhos ao Céu”, a olhar para cima para poder ver o salvador no sinal de um Menino numa manjedoura (2,15). Jesus na multiplicação dos pães e os peixes “ergue os olhos ao Céu” (9,16). Parte do que se tem, olha-o a partir da confiança no dom do Criador, abençoa-os, parte-os e ensina os discípulos a partilhar o pão e a fé. Todos ficam saciados e ainda sobram 12 cestos.

“Para mim, a oração é um impulso do coração, um simples olhar dirigido para o céu, um grito de agradecimento e de amor, tanto do meio do sofrimento como do meio da alegria. Em uma palavra, é algo grande, algo sobrenatural que me dilata a alma e me une a Jesus.”  (S. Teresinha de Lisieux)

O nosso ministério é feito deste subir e descer ao monte que nos faz ver o mundo a partir de Deus, numa confiança filial e horizonte aberto à fraternidade? Como conjugamos em nós a Marta e a Maria?

Rezar precisa de aprendizagem (11,1). Jesus ensina-nos que se deve rezar em atitude de filho amado por um Pai Santo e doador de si e do seu Reino (11,2-4). Pai que nos dá o pão de cada dia com a generosidade da criação e o engenho e a força do trabalhador, mas também nos dá um coração fraterno e solidário com os irmãos. Que nos ensina a pagar com a mesma medida da misericórdia, perdoando a quem nos ofende. Que alerta para a vigilância e para a ação real e permanente do mal, que nos tenta e engana com as suas promessas, e nos cega o olhar com a malícia e a ilusão do poder, do prazer e da idolatria. A parábola do amigo inoportuno (11,5-8) é uma bela imagem do que é a oração. Ela é feita num ambiente de fé. Não vemos o amigo mas confiamos que ele está lá dentro e nos ouve. “Crer não é mais do que, na escuridão do mundo, tocar a mão de Deus e assim, no silêncio, escutar a Palavra, ver o Amor.” (Bento XVI). A oração nasce da caridade. Devemos pedir com insistência o dom maior que é o “Espírito Santo” (11,13), que ajuda a sintonizar com a vontade de Deus e a ter um coração à medida de Jesus.

No cap. 18 é uma viúva que pede justiça (18,1-8). Jesus quer ensinar-nos a rezar mesmo quando a nossa imagem de Deus é a do um juiz injusto. É mais importante ter fé, confiar no poder da oração, do que desistir de Deus e virar-se para outros ídolos de segurança. Hoje sabemos como se generalizou o mercado das soluções redentoras.“Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?” (18,8)

Na oração do Monte das Oliveira, Jesus vai de noite (22,39-46). Convida os discípulos a orar para não caírem em tentação (11,4). depois afasta-se um pouco, ajoelha-se no chão e ora (22,42). É um momento de confiança e de verdade, onde expressa o que lhe vai na alma e aquilo que era o seu desejo, mas abre-se à vontade de Deus. Um anjo veio consola-lo (cf. Gn 21,15-18; 1 Rs 19,4-8). Quem ora recebe recebe o dom da consolação e da paz. A oração é uma luta entre o que nós queremos e o que Deus quer. Jesus, como Jacob, luta durante a noite. É uma luta contra a tentação de adormecer (22,46) e não ouvir a voz de Deus que nos fala no escuro e por detrás da porta, para seguirmos a voz de encantamento que nos fala da glória do mundo, da honra de sangue, do bom nome, do que os outros vão pensar, das dúvidas de fé que nos segregam ao ouvido: e se é tudo mentira? Vale a pena dar a vida por quem não te quer? Os outros não se importam, porque é que tu te deves importar?

Como vivi este ano da fé? Aguento falar com o amigo Deus, Pai e irmão escondido, durante a noite da procura e a porta da fé? Continuo a confiar em Deus, apesar de saber que o tempo de Deus não é o meu tempo? Noto as inconstâncias na oração e as desculpas que arranjo para fugir dela? Como atuo nos momentos de sofrimento, decisão difícil, futuro incerto, missão que não quero? Sinto necessidade de rezar?

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