Ver com as entranhas

 

O cap. 15 está na parte central da 2ª parte do Evangelho (9,51-19,27) e é introduzido pela incompreensão dos fariseus e escribas ao verem Jesus a acolher cobradores de impostos e pecadores. Jesus não se afasta para não ser contaminado, mas aproximação para curar e salvar. 

A parábola da ovelha perdida (15,4-7) também aparece em Mt 18,10-14. A imagem do bom Pastor é comum na Bíblia. Define as relações entre Deus e o seu povo (Mc 6,34; Jo 10,11-18). O reencontro da ovelha perdida é uma figura da salvação (2 Sm 12,1-7; Is 53,6; Jr 23,1-4; Ez 34,5-6; Mq 2,12-13; Zc 11,15-17; Mt 9,36). A alegria de ter 99 justos não é completa enquanto houver algum perdido, longe do redil.

A parábola da dracma perdida (15,8-10), apresenta-nos o rosto feminino de Deus e revela um coração que não esquece os pequenos e faz tudo para os reencontrar: acende a candeia, varre a casa e procura-a cuidadosamente até a encontrar. Nada e ninguém substitui a pequena moeda que se perdeu. O resultado é sempre a alegria do reencontro, uma experiência bela, feliz e contagiante.

Estas duas parábolas fazem-nos pensar na “Nova-Evangelização”. Habituámo-nos a achar normal perder ovelhas e drácmas. Contentamo-nos por ainda termos algum rebanho connosco. O censo de 2011 dá 81 % de pessoas que se declaram católicas em Portugal, mas que católicos? Todos somos ao mesmo tempo, terreno de missão e trabalhadores da missão. Nós também já fomos recuperados várias vezes pelo Bom Pastor. Não basta receber, é preciso aprender a dar perdão, a procurar o irmão perdido, a evangelizar. 

Lc 15, 11-31 Parábola do Pai misericordioso. Deus vê com ternura e misericórdia e este olhar é infinitamente mais poderoso do que a força do pecado e as vistas estreitas e limitadas dos homens.

O filho mais novo começa por se ver herdeiro de direitos. No pai só vê as coisas que possui. Na cultura judaica era o filho mais velho que tinha a primazia na herança. Neste sentido a atitude do filho mais novo, também afeta a relação com o seu irmão mais velho. O irmão mais velho nunca mais lhe perdoou, mas o pai deixa partir o filho como quem assiste à morte duma parte dele. Mas o Pai jamais deixa de ver os filhos como filhos. O Filho mais novo, só quando perde tudo o que lhe tolhe a visão é que se dá conta que ficou sem nada. Este “cair em si” leva-o a desejar voltar para casa, a pedir perdão ao Pai e a suplicar que este o receba como seu empregado.

O Pai quando o vê,  ainda estava longe. É a compaixão que nasce do estremecimento das entranhas que o faz ver ao longe, correr como um jovem, abraçar e beijar o filho como uma mãe, fazer voltar o filho às entranhas da vida onde nasceu. É esse ver a partir das entranhas que o faz esquecer o passado, dar por bem utilizado o tempo de espera e ajudar o filho a renascer a partir de fora (vestes, sandálias, anel) para que possa renascer a partir de dentro: espírito de filiação, coração fraterno, olhar humilde, reflexo do pai. O reencontro termina sempre em festa.

O filho mais velho permanece em casa e serve-o com fidelidade, mas não se sente em casa. É o herdeiro, mas vive como um empregado. Vive em casa órfão de pai e sem querer ter o irmão que tem.

O pai dá-se conta que o filho mais velho não quer entrar em casa. Não há lugar em casa para os dois. O pai revela-lhe as motivações que o levaram a aceitar e a perdoar ao seu irmão (15,31-32). Precisa de redescobrir um rosto do pai, mais terno, magnânimo e libertador. Mas também precisa de aceitar o seu irmão. Convida o seu filho a descobrir que a verdadeira herança não são os cabritos ou os bezerros, mas as entranhas de compaixão que fazem renascer o que está morto e festejar o reencontro do que está perdido.

Nesta parábola há quatro personagens de identificação: o Pai, o filho mais novo e mais velho e os criados. O Pai representa o rosto compassivo e paciente de Deus. O filho mais novo, o pecador que ofende mortalmente o pai e o irmão e coloca a sua confiança no dinheiro, no prazer e no poder. Mas também mostra o processo de tomada de consciência do pecado, o arrependimento e o regresso humilde à casa do Pai, sabendo que vai ser acolhido por pura misericórdia e perdão do Pai. O filho mais velho que representa os fariseus e escribas, mas também cada um de nós que trabalha na casa do pai e procura não infringir os mandamentos, mas continua a ter dificuldades em aceitar o irmão que falha, a ficar ressentidos, a ser impacientes, a criticar por detrás, a excluir pessoas do seu coração, a dar sermões de humilhação aos faltosos… Temos depois os serventes que obedecem prontamente ao Senhor, trazem a túnica, as sandálias e o anel para o filho mais novo, matam o vitelo gordo, preparam a festa e alegram-se com o dono. Quando chega o filho mais velho, vão prontamente ao seu encontro, e explicam-lhe o sentido da festa segundo o coração do patrão (15,27). Este servo, que age de acordo com o coração do Pai, parece-se com Jesus, que embora seja Filho age como Servo e parece com o Pai. É com os servos, é com Jesus, que o Pai pode contar, pois tanto o filho mais novo como o mais velho são muitos instáveis e impenetráveis. É este Servo que imita o Pai no alto da cruz e manifesta um amor ilimitado e incondicional por nós.

Com quem me identifico nesta parábola? O que me faz ficar mais ressentido com os outros e revoltada com Deus? O que me custa mais imitar em Jesus? Como acolho o pecador, o que erra e têm má fama? O projeto pastoral destina-se apenas aos noventa e nove justos ou concentra todas as suas energias em procurar os que se perderam ou afastaram? Qual o lugar do sacramento da reconciliação na minha paróquia?  

J. Augusto, svd

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