Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no (Lc 24,31)

 

Onde podemos encontrar Jesus, ouvir a sua voz, reconhece-lo no meio de nós? No irmão, na Sagrada Escritura e na Eucaristia e na missão. A narração dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35) só aparece em Lucas. Está no contexto das aparições aos discípulos após a ressurreição.

Lucas fala-nos da cegueira da fé. Os dois discípulos veem alguém aproximar-se, mas não o reconhecem como Jesus ressuscitado (24,15-16). Estavam impedidos de o reconhecer! O que os impedia?

Primeiro que tudo as suas expetativas e certezas fechadas (24,21). Quem espera um Messias guerreiro, que se impõe pela força das armas e do poder, que destrói os inimigos e conquista o poder e libertação à maneira dos imperadores inimigos, perde toda a esperança quando vê morrer o seu líder, crucificado numa cruz e enterrado à pressa, em vésperas de Sábado. Estas expetativas messiânicas, interpretadas por Jesus como tentações de Satanás e combatidas por Jesus nos três anúncios da sua paixão (9,21.44-45; 18,31-34), não foram acolhidas e interiorizadas pelos discípulos durante o tempo em que Jesus esteve com eles e os ensinou no caminho para Jerusalém: “Aquela linguagem era incompreensível para eles, e não entendiam o que lhes dizia” (18,34) . Seguir Jesus e confiar apenas nele,  significa “negar-se a si mesmo” (9,23-26), “renunciar a tudo o que possuiu” (14,33), escutar a voz do Mestre e acreditar nele. A segunda trave que impede de O ver são os preconceitos culturais: acham que o testemunho das mulheres não é credível. Ouviram-nas anunciar que o túmulo estava aberto e vazio, que lhes tinham aparecido uns anjos a dizer que Jesus está vivo, mas apenas ficaram mais perturbados. Alguns discípulos que foram verificar a veracidade do que as mulheres contaram e encontraram as ligaduras, mas a Jesus não o viram. Não conseguiram ver para além dos sinais porque estavam cegos de expetativas, preconceitos, desespero e talvez vergonha (9,26) por se sentirem enganados durante três anos por mais um desses messias que prometem muito, mas acabam todos no esquecimento e desaparecimento.

 

Escutar e recordar: Jesus, o companheiro desconhecido, é um sábio perguntador. Antes de ensinar, escuta quem discute e volta de Jerusalém para a Emaús do sem sentido e do passado. Ele é o bom pastor que fica ao lado de quem desiste dele, como companheiro de viagem e luz escondida. As suas perguntas possibilitam aos discípulos ouvirem-se a si mesmos nas expetativas e angústias que balançam nos seus corações. É a partir do que se é e do lugar em que se encontra que Jesus parte e responde com a lectio divina. Jesus diz-lhes que tudo está anunciado em Moisés e nos Profetas, mas são “homens sem inteligência e lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas anunciaram!” Apesar da cegueira dos discípulos, Jesus explica-lhes de novo que o caminho da glória de Deus não é de destruição, mas o da doação de vida e misericórdia redentora. Sem se darem conta, o seu coração começa a arder e a descobrir o sem sentido que é desistir de Jesus. O ouvir com o coração começa a alargar o espaço para acolher o desconhecido e as Escrituras. Vacilam as certezas e abre-se espaço para a novidade de Deus.

 

Abriram-se os olhos: Jesus faz menção para seguir em frente, seguir o seu caminho como fez muitas vezes. Mas agora são os discípulos que querem mais e transformam o companheiro que se aproximou deles, em convidado para a sua casa em Emaús. Jesus aceita o convite, entra em casa dos pecadores como entrou na casa de Zaqueu e senta-se à mesa da casa de Emaús da traição e da rejeição do messianismo humilde e frágil de Jesus. É o rosto da misericórdia que acolhe os pecadores, doando a vida por eles. Foi a fração do pão que os fez recordar a comensalidade habitual de Jesus e a última Ceia Pascal (24,30). Foi a presença gratuita e compassiva que os fez verem-se pecadores amados e procurados como a drácma e a ovelha perdida (15,1-10), como os dois filhos do pai misericordioso que não entendem a lógica do perdão e da festa da salvação (15,11-32). Foi este sentir-se surpreendidos pela graça e amados por Jesus em fração de vida, que os leva a começar a ver e a reconhecer Jesus no companheiro desconhecido que é a Palavra que ilumina a vida e a vida que se faz alimento partilhado (24,31a).

 

Deixaram de o ver: No momento em que o reconhecem, Ele desaparece da sua presença (24,31b). Fica apenas a experiência da Palavra que aquece e recorda, do sinal sacramental que confirma a fé, alegria e certeza da fé que lhes traz luz nova e os faz voltar para Jerusalém, para a comunidade de Jesus para testemunhar que Ele está vivo. Já não precisavam de ver Jesus, porque eles próprios testemunharam que Ele está sempre connosco, nós é que nem sempre temos condições para O ver e reconhecer. Esta experiência da graça leva-os a não ter medo da noite e a voltar imediatamente a Jerusalém. Ao chegarem, dão-se conta que Jesus procura as ovelhas perdidas sem abandonar e animar as ovelhas que que ficam no redil. Também Jesus apareceu a Simão e confirmam que está vivo. É neste encontro de narrações e testemunhos de vida que Jesus aparece de novo aos discípulos. A Missão gera vida nova na comunidade e cria condições para que todos abram os ouvidos e os olhos para ver Jesus com o coração da fé.  

A passagem de Lc 24,13-31 ajuda-nos a ver melhor o Reino de Deus no meio de nós? As nossas Eucaristias são verdadeiros encontros com Jesus ressuscitado e ajudam-nos a ver Cristo na vida e leva-lo para a vida? Temos a coragem de imitar Cristo, caminhando ao lado dos que se afastaram da fé e vivem em pecado?

J. Augusto, svd

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