SINAIS DOS TEMPOS…
Era o primeiro aniversário do falecimento do seu pai, um HOMEM que tinha desenvolvido uma atividade profissional muito preocupado com a saúde dos outros. Aposentado, dedicou-se com alma e coração a uma instituição de solidariedade social com ações de voluntariado.
Marcada a missa na Igreja Matriz do Arciprestado, o filho telefonou para todos aqueles que em vida acompanharam o progenitor em todas as diversas atividades sĂłcio caritativas, apelando para todos estarem presentes naquele ato piedoso. Apareceu apenas um que confortou o jovem filho, desiludido pelo abandono a que votaram o pai. Sinais dos tempos…
Uma jovem Professora faleceu depois de um longo sofrimento, vĂtima da doença dos nossos tempos. Quando morre alguĂ©m que dedicou parte da sua vida a ensinar os nossos filhos, os nossos jovens, a fim de serem os homens e as mulheres de amanhĂŁ, a sociedade fica mais pobre. O funeral decorreu na sua vila natal, acompanhada pelos familiares e por muitos professores companheiros de profissĂŁo e alunos. A mĂŁe num jornal local escreveu: ”recordarei toda a vida o teu sorriso de amor, eu cá fico nesta dor.” Do pároco e celebrantes das exĂ©quias nem uma palavra, nem a expressĂŁo de um sentimento de solidariedade, de pesar. Sinais dos tempos…
Manhãzinha de domingo na capital ainda adormecida. O caminhante seguia a pé das Amoreiras para Alcântara, ao som de diversos aviões que se aproximavam do Aeroporto de Lisboa, da Portela, há dias batizado de Humberto Delgado. Quando se verificar outra revolução, mudará de nome? Sinais dos tempos…
Na Rua Maria Pia, perto do Casal Ventoso, uma idosa em pijama já está á janela de um rés-do-chão, acenado a um ou outro transeunte madrugador. O caminhante, estranhando esta postura, abeira-se e procura saber a razão da sua saudação matinal. Esclarece que está sozinha com as filhas (três) no estrangeiro a ganhar a vida e quando não consegue dormir vem para a janela de madrugada, sempre vê pessoas e saúda-as. Sinais dos tempos…
Um pouco à frente, e na mesma rua, um proxeneta dentro de um velho carro discute em atitudes agressivas com duas jovens (estas com aspeto cansado, a noite deve ter sido muito ativa, na profissão mais antiga do mundo) a divisão dos pagamentos dos clientes. Sinais dos tempos…
Na aldeia celebram-se dois acontecimentos com a presença do Bispo da Diocese. Na sacristia iam chegando alguns padres e diáconos. Um desses acontecimentos era recordar os anos de sacerdĂłcio de um missionário, com mais de meio sĂ©culo de atividade pastoral diversificada – capelĂŁo no Ex-Ultramar, escritor, cronista, professor de ensino secundário, colaborador em diversas parĂłquias e nos subĂşrbios de Paris. Todos passam ao lado, as suas atitudes lembravam aquela parábola do samaritano. AlguĂ©m agarra no braço do arcipreste e dá-lhe a informação: “ está aqui um missionário, façam o favor de o cumprimentar.” Salvou a honra do convento, o Bispo Diocesano com uma saudação. Sinais dos tempos…
NinguĂ©m ama mais a sua terra natal do que ela, apesar de muito nova ter tido necessidade de emigrar para a capital. A sua residĂŞncia tinha sempre a porta aberta para os seus conterrâneos e principalmente a mesa posta para os familiares, muitas vezes ali pernoitaram. As raĂzes eram tĂŁo profundas que comprou uma habitação a fim de passar alguns perĂodos festivos e fĂ©rias durante o ano. ViĂşva e doente, tem sido praticamente abandonada por aqueles que tinham a obrigação moral e cĂvica de a ajudar. Sinais dos tempos…
Hora de eucaristia dominical na igreja local. Dois casais, acompanhados com os respetivos filhos de tenra idade. Estes, com as tabletes de jogos, passam o tempo da liturgia a brincar, e um deles com as tropelias de se deitar no banco. Os pais bem tentam pô-los na ordem, mas os rebeldes não obedecem. Quando chegarem à adolescência não há ninguém que os trave. Sinais dos tempos…
Numa estação de abastecimento de combustĂveis, uma jovem mais vermelha que um pimento em Outubro, chora compulsivamente num automĂłvel. NĂŁo muito longe o seu companheiro Ă© chamado Ă atenção por um agente de autoridade Ă civil, pelo comportamento agressivo para com a sua companheira. AlguĂ©m diz Ă menina agredida,” agora namoras, amanhĂŁ casas e tens pela certa, uma sova todos os dias.” A tĂmida jovem nega sem convicção a agressĂŁo, esconde um fato, que está mais que observado. NĂŁo demorou muito tempo a chegada de uma patrulha mĂłvel da GNR, a fim de levar o agressor aos corredores da justiça. Sinais dos tempos…
AntĂłnio Alves Fernandes
Aldeia de Joanes
Outubro/2016
