A CASA AMARELA

O Conde Ferreira era, no dizer camiliano, um “brasileiro”. Era assim que Camilo Castelo Branco se referia aos enriquecidos regressados do Brasil, conforme “A Brasileira de Prazins”, irmã por afinidade do “Primo Bazílio“ de Eça de Queiroz.

Com base no que acabo de ler no D.N., de 5 de Junho, 45% dos alunos do 5º Ano, nas Provas de Aferição, não localizaram Portugal no Mapa da Europa, e só 15% dos alunos do 8º Ano redigiram um texto bem organizado e coeso. Muitos estudantes de Português nunca ouviram falar de Camilo Castelo Branco, um dos grandes estetas da Língua Portuguesa, possivelmente banido dos compêndios escolares e nem sequer precisou de ser fascista…

Em Portugal, este “enricado brasileiro” comprou o título de Conde, não foi necessário mandá-lo pelo correio num domingo ou num feriado nacional. Lembro-me da célebre frase popular e irónica, no tempo do Liberalismo: “foge cão, se não fazem de ti barão, ao que o cão respondeu, para onde, se logo me fazem conde?” Que actualidade nos tempos académicos em que todos têm licenciaturas e doutoramentos, até os que não têm… É um regabofe…

Isto passava-se nos últimos tempos da Monarquia Portuguesa. Com o advento da República, passou-se de Conde a Comendador. Actualmente temos Comendadores de mérito da agricultura, da indústria, do comércio, da banca falida, da bancada futebolística, Comendadores da condecoração que cai do céu, nem que seja de cortiça.

O nosso Conde, além de ser Conde, era igualmente um grande benemérito e doou aos portugueses hospitais psiquiátricos e escolas primárias, conhecidas por “escolas dos sininhos”. A este propósito, lembro a primeira Escola Primária do Fundão, lá tem um sininho para assinalar o recreio das crianças, não vá o docente esquecer-se, tão atarefado a lutar pela sua promoção automática. Promovida foi esta Escola Primária a Direcção Escolar, mais tarde nova promoção a sede da Junta de Freguesia do Fundão, formando uma turma grande, por vezes indisciplinada, com outras “micro-freguesias”.

Não há dúvidas do patrocínio do Conde Ferreira na construção das Escolas Primárias, um total de cento e vinte no País, todas iguais de estrutura para não discriminar ninguém. Uma delas está situada na Rua dos Condes em Idanha-a-Nova. O Conde Ferreira dividia o seu tempo condal entre duas preocupações: a instrução das crianças e a saúde mental. Terá constatado que os portugueses iriam no futuro padecer de graves enfermidades mentais, fundamentando-se no nível de endividamento, de pobreza, de stress, de envelhecimento, de falta de saúde primária, de desemprego…

O Hospital Conde Ferreira de Barcelos exibe uma fachada granítico-acinzentada. No entanto, uma investigação de saúde mental descobriu que as paredes interiores e os aposentos dos doentes estavam pintados de amarelo muito vivo, chegando-se à conclusão, depois de extensos relatórios, que os pacientes mais graves, nas suas agitações, tinham predilecção pela cor amarela. O Povo, quando viu o milagre desta cor viva como o Sol, baptizou o edifício de Casa Amarela.

Hoje está desabitada, mas foi refúgio de encontros amorosos, inspiração para algumas facadas no matrimónio e outros episódios a que Camilo Castelo Branco emprestaria o seu talento romanesco.  

Contam-se muitas peripécias do “Fodaz”, um “Jack estripador” português, assassino assíduo da Casa Amarela, aonde levava as suas vítimas:

uma espanhola católica, no final da liturgia amorosa, disse-lhe: “Dios mío, mañana me voy a confesar!” O “Fodaz” sacou do revólver e o último beijo foi mortal;

uma francesa, nos términos do acto, disse-lhe: ”alors, mon chéri, le cadeaux qui tu m´as promis.” O “Fodaz” ofereceu-lhe uma bala letal;  

o “Fodaz” envolveu-se numa batalha carnal com uma americana, mas desta vez o tiro foi mais amável, pois ela no chão ainda teve tempo de lhe perguntar: “Boy, by the way, what´s your name?”;

à saída de um repasto, o “Fodaz” achou graça levar uma chinesa à Casa Amarela, agradeceu-lhe os olhos em bico e pum…

Amigo leitor, estas são algumas das “Recordações da Casa Amarela”.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Junho/2018

a casa amarela

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