I GRANDE GUERRA E A MISSÃO DOS CAPELÃES MILITARES PORTUGUESES

Portugal entrou na Primeira Grande Guerra, 1914-1918, principalmente devido a dois fatores. O primeiro, a necessidade urgente de defender o Império Colonial, num eventual Tratado de Paz. Corria-se o risco daqueles territórios serem um joguete dos vencedores, atendendo a inúmeros interesses. Também sabemos que a nossa velha aliada Inglaterra (a mais velha aliança do mundo), tinha um acordo secreto com a Alemanha para dividir as Colónias Portuguesas. Como não se sabia quem seria o vencedor, a melhor posição lusitana foi jogar ao lado dos aliados ingleses.

Já andávamos há dois anos em guerra com a Alemanha em Angola e Moçambique sem uma declaração formal. No sul de Angola, atacaram-nos a norte do Rio Cunene e os alemães praticaram diversos massacres e atacaram diversos aquartelamentos. Em Moçambique, atacaram-nos a norte do Rio Rovuma. Portugal teve tantos mortos e feridos nestes cenários da guerra africana, como na Flandres. Não se podia estar em Guerra na África e em paz na Europa, razão pela qual o Parlamento Português decidiu declarar guerra à Alemanha.

A segunda causa de entrada na Grande Guerra foi a então recente implantação da República em 1910, regime que caiu mal numa Europa maioritariamente monárquica, com destaque para Inglaterra. Em Portugal os partidos republicanos dividiram-se em lutas internas constantes. Portugal estava isolado, sem credibilidade e havia necessidade de se afirmar na Europa. Por razões de política interna, caseira, havia que participar nesta Grande Guerra.

Cerca de cinquenta mil militares portugueses formaram o CEP (Centro Expedicionário Português), tropas mal preparadas, desorganizadas, sem meios, e lá partiram para a Flandres (França), via marítima.

Todos sabem que as guerras não se vencem apenas na frente da batalha, nas trincheiras com as armas da artilharia, da cavalaria, engenharia ou infantaria. É necessário implementar uma logística para apoiar as tropas, assim são chamados os serviços de manutenção militar, oficinal, saúde e religião.

Num contexto político desfavorável à Igreja, foi necessária a acção do Patriarca de Lisboa, apoiado pela Conferência Episcopal, para forçar o Governo a legislar e determinar o envio de capelães militares para apoiar moral e espiritualmente as tropas expedicionárias portuguesas.

A bordo do Navio Pedro Nunes, dezasseis padres voluntários, cabendo a cada um, o cargo pastoral de cerca de três mil militares, com a patente de alferes e sob coordenação do covilhanense José Patrocínio Dias, saíram de Lisboa, via marítima, não podendo atravessar território castelhano (a Espanha era espaço neutro), e desembarcaram no Porto Marítimo Francês de Brest, junto ao Canal da Mancha. Dali partiram de comboio para o teatro das operações de guerra, na localidade de Aire Sur La Liz, perto de Lille, cidade ocupada pelas tropas alemãs.

Saliente-se que não tinham qualquer vencimento tendo sido necessário criar uma Comissão Central de Assistência Religiosa, presidida pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo, que angariava fundos para subsidiar os capelães e custear as despesas do culto e assistência religiosa.

A missão destes assistentes espirituais foi de uma grande e profícua amplitude social, humana e religiosa. Ao som das metralhas, em ambientes de tensão, de guerra, celebravam eucaristias, apoiavam psicologicamente os militares (alguns pela última vez), distribuíam a comunhão, realizavam casamentos e batizados, organizavam as festividades do Natal e da Pascoa, ministravam os Sacramentos.

Muitas vezes, com a dor no coração, escreveram cartas a familiares de militares mortos ou feridos, consolando-os e transmitindo-lhes palavras de fé e esperança. A dor ainda era maior quando se registavam as mortes e se anotava o local da sepultura, concretizado o ato piedoso do funeral. Confortar alguns soldados que por razões diversas de sanções disciplinares, inclusive o fuzilamento. Prestavam também grande colaboração nos serviços clínicos e de enfermagem aos militares feridos.

Pelos serviços prestados, todos estes Capelães Militares foram condecorados. Da Diocese da Guarda, destaca-se o Padre José Patrocínio Dias, natural da Covilhã, aluno do Colégio Jesuíta de S. Fiel, formatura em Teologia na Universidade de Coimbra, Pároco em S. Vicente da Beira e Cónego da Sé da Guarda.

Regressado da Flandres e prestigiado pelo trabalho desenvolvido, foi nomeado Bispo de Beja, onde durante muitos anos exerceu o múnus episcopal, deixando obra meritória.

Estes dezasseis capelães voluntários, estas vidas heróicas e consagradas de amor ao próximo, prestaram com sangue, suor e lágrimas grandes serviços humanitários aos militares portugueses e devem ser recordados com esta frase… ubi caritas et amor, Deus ibi est, e tem todo o sentido e aplicabilidade.

 

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Fevereiro/2015

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