À MINHA SAUDOSA MÃE

“Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim! “

Miguel Torga

Nasci numa aldeia arraiana, nas vizinhanças das terras castelhanas, no final da Segunda Guerra Mundial. Os nascimentos eram muitos, os cuidados de saúde eram zero. A sobrevivência era excepcional e atribuída à Nossa Senhora de Fátima. Para dar forças às Mães matava-se a galinha mais gorda da capoeira, o que (superstição ou não) lhes permitia amamentar os filhos. Os chás das curandeiras, a medicina da pobreza, também davam o seu contributo.

Hoje lembro-me da minha Mãe e do milagre do meu nascimento. O parto foi difícil, ambos estivemos à beira da morte, e só Deus sabe como nos safámos. Talvez pelo Altíssimo simpatizar com o nosso palheiro ou com o nosso burrico de subsistência.

Nos anos seguintes, nasceram mais 5 rapazes e quatro raparigas (a Isabel e o Joaquim já estão na Terra da Verdade). Eram poucas as pernas da mesa para tantas pernas de criança. No entanto, apesar da pobreza, havia uma grande união e esperança em melhores dias. O Amor era o nosso dinheiro. Na nossa casa de granito semeava-se a Partilha. Essa casa é hoje uma ruína que só pela arquitectura da memória se levanta.

O valor da cultura era fundamental para os meus saudosos Pais. A cultura não era ir no fim-de-semana ao Centro Cultural de Belém (de Belém só tínhamos o burro e o palheiro), mas aprender a ler e a escrever. “Ao menos que saibas escrever o teu nome”, diziam eles. Enquanto os deveres da escola não estivessem feitos, não havia ceia para ninguém. Era essencial passar com sucesso no exame da 4ª classe. O prémio era uma viagem de comboio da Cerdeira do Côa até à Guarda, a “civilização”. Aí nos sentíamos pequeninos quando caminhávamos pelas ruas ou visitávamos a Sé imponente, a Igreja da Misericórdia, o Quartel Militar, o Paço Episcopal, o Castelo, a Igreja de S. Vicente, a Estátua de D. Sancho, etc.. O almoço era na Adega Regional, a refeição barata: um pratito de feijão branco e os assuntos de estômago ficavam arrumados. Podíamos então regressar à Bismula pela Ponte de Sequeiros sobre o Rio Côa.

Anos mais tarde, já imigrados em Setúbal, recordo a figura da minha Mãe. Para ajudar a pôr alguma comida na mesa, encarregava-se de uma Capela Funerária e mais tarde passou a Contínua numa Escola Primária com trezentos alunos no bairro da Azeda (antes uma zona pobre descampada, hoje um “vivendaval” de supermercado). Nas excursões escolares, lembro-me que a minha Mãe colocava os alunos mais pacíficos à responsabilidade dos mais rebeldes, o que disciplinava os muito desordeiros e estimulava os demasiado ordeiros. Uma autêntica aula de psicologia.

Com a venda das courelas pobres da Bismula, lá se arranjaram uns tostões para comprar um terreno e construir a nossa casa, nos limites da cidade de Setúbal. Antes, onde entrávamos, éramos colocados na rua, diziam que cheirávamos a pobreza, o que podia levar à criminalidade. Registou-se o terreno, mas a licença de construção nunca mais chegava. Talvez esperassem uns trocos debaixo da mesa ou a nossa família descalça inspirasse desconfiança. Os problemas dos pobres são sempre adiados. Recordo que a minha saudosa Mãe não esteve com meias medidas. Pegou nos filhos e colocou-os à porta do gabinete do Presidente da Câmara, dizendo que não saía dali enquanto não tivesse a licença de construção. O Presidente, para evitar o escândalo e a chamada da Polícia Criminal (sabe-se lá o que se passava no gabinete da autarquia!), não teve outro remédio senão acelerar o processo. Passada uma semana, burocracia regularizada, já deitávamos as mãos à obra.

Muito teria a contar desta NOBRE MÃE, cuja vida daria para um livro. Talvez um dia se faça, como se fez sobre o meu PAI.

Hoje lembro-me dela e a ela me dirijo: Foste uma Mulher de coragem, forte, destemida, vertical, justa, trabalhadora, enfrentaste os poderosos e no cemitério beijei-te com enorme carinho por todos nós, os Homens e Mulheres que formaste. O teu nome – Maria da Piedade Alves Lavajo – será para sempre abençoado. Obrigado Mãe por nos deixares um mundo de afectos e resistência.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Abril/2017

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