A PARTIDA

Estava-se em Abril/68, recebi a Guia de Marcha para Penamacor, 1ª Companhia Disciplinar. Não sabia que a terra de Ribeiro Sanches, médico militar, tinha aquela Unidade Militar, junto à fronteira com terras castelhanas. Solicitei um quartel em Lisboa e suas periferias e recambiaram-me para a fronteira.

Com as guias de marcha, comecei a longa viagem com início em Setúbal (dei os últimos beijos e abraços aos meus pais), segui via-férrea, Barreiro-Barco-Terreiro do Paço-Santa Apolónia, com destino à Estação de Fatela-Penamacor, parando em todas as estações e apeadeiros. A meio da tarde, finalmente desembarcam comigo alguns passageiros. Estive mais umas horas à espera do autocarro, ao fim de trinta quilómetros no asfalto chegámos à Companhia Disciplinar.

Ali estive oito meses como Tesoureiro e Chefe da Secretaria da Unidade, onde chegaram os ecos da Revolução em Paris, o Maio/68. Durante este tempo, apenas uma vez fui de relâmpago a casa dos meus Pais e Irmãos em Setúbal.

Em Agosto/68, sem ser havido nem achado, recebi uma mensagem confidencial, a indicar-me o caminho para a Guiné em fins de Setembro. Não tardou a chegar quem iria em rendição individual, em finais de Outubro, concretamente dia vinte e oito.

Na manhã desse dia estava pronto para embarcar com o fardamento completo, uns livros, umas roupas simples e alguns objectos. Sozinhos, sem familiares nem dinheiro, achámo-nos no Cais de Alcântara. Ouviam-se marchas militares, misturadas com chuva outonal. Próxima, embora isolada por um cordão policial, estava uma multidão de familiares, muitos pais com estandartes improvisados com os nomes dos seus filhos. Vozes e gritos estavam misturados com a aflição do cantarolar das gaivotas. Gaivotas em terra, tempestade no mar… Não tínhamos conhecimento do que nos esperava em terras longínquas e estranhas.

Um general vociferava palavras que pareciam granizo contra os militares mobilizados. No tom patrioteiro próprio do regime, afirmava nas varandas do Cais: “sinto em vós um grande orgulho por partirdes ao serviço da Pátria, defender uma parcela do nosso território. Sois os herdeiros dos nossos antepassados, herdeiros de D. Afonso Henriques, dos Combatentes da Batalha de Aljubarrota, dos Heróis da Independência de Portugal, Soldados de 1640.

Lá em baixo, fardas molhadas, repletas de prantos, camisas, gravatas, calças, blusão, todas de cor verde, de esperança para alguns, de morte para outos. Tudo perfilado, passagem de revista às tropas ao som da Banda do Exército, a um passo do barco onde embarcaríamos para um destino desconhecido.  

Subimos a escada do Uíge da CCN (Companhia Colonial de Navegação), ao serviço das Forças Armadas, que armazenava mil e tal militares, enquanto os familiares e amigos chorosos acenavam com lenços brancos, à nossa partida, igual às peregrinações do 13 de Maio na Cova da Iria.

Uma vez no Uíge, nova formatura para recebermos diretrizes, lista previamente escolhida do pessoal de serviço e respectivas tarefas e alojamentos. A soldadesca para o sector dos porões, como gado que ia para os Açores. O pessoal graduado para camaratas improvisadas, o pessoal superior miliciano e do quadro em camarotes, a três, com beliches, como nos Estabelecimentos Prisionais.

Um enorme espaço cheio de silêncios, de gritos, ou seja, o silêncio gritava e os gritos estavam calados.

Durante cinco dias de navegação, decorreram no convés várias sessões de socorro a náufragos, com técnicas de salvamento, barcaças, bóias… Se acontecesse um naufrágio, não sei o que aconteceria, apesar de tantas palestras sobre o tema.

Esta viagem marítima era um Regimento em andamento com todas os deveres militares, ouviam-se palestras e músicas, comia-se o que havia, viam-se filmes de pouco interesse e diariamente recebia-se uma folha verde com as notícias mais importantes. Das guerras coloniais nem uma palavra. Era a lei de quem nos governava.

Vimos pela primeira vez peixes voadores, com eles o nosso desejo de voar daquele espaço.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Fevereiro/2018

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