Aldeia de Joanes – Culto à Sagrada Família.

Nas nossas aldeias, e em muitas paróquias de vilas e cidades, a Sagrada Família percorria os diversos lares numa escala pré-estabelecida. Consistia num oratório, uma caixa retangular, feita de madeira de castanho e forrada com um tecido de seda, com um pequeno piso superior onde estavam as imagens. Na parte da frontaria de vidro, tinha duas portas e uma pequena ranhura para recolher as esmolas dos voluntários.

Este culto na Europa remonta aos séculos XVI e XVII, atingindo maior incremento nos séculos XIX e XX, com a devoção e solícita proteção à Sagrada Família de Nazaré, com reflexos em Portugal.

Em Aldeia de Joanes, segundo Higino Serra Cruz, há dois oratórios da Sagrada Família, um destinado ao serviço das gentes das quintas, que visitou durante muitos anos dezenas de lares, hoje infelizmente esquecido nos armários da sacristia na Igreja Matriz. 

O outro oratório, onde estão inseridas as imagens do Menino Jesus, Nossa Senhora e São José, percorre em Aldeia de Joanes cerca de sessenta lares, com a permanência normal de um dia. De uma forma geral, saúda-se com uma oração muito própria: “Amado Jesus, José e Maria, o meu coração vos dou e alma minha, assisti-me na última agonia e expira em paz alma minha”. Todavia, cada família tem a sua dinâmica própria, individual e coletivamente.

Também Maria Manuela Marques Bernardo Fernandes recorda a visita da Sagrada Família, principalmente na casa da sua avó e dos seus pais. Escolhia-se a sala mais importante da casa, os melhores panos de linho (a imitar as toalhas de um altar), onde se colocava o Oratório diante de uma lamparina alimentada a azeite.

Melhor que os nossos comentários, é ouvir as motivações e considerações de algumas das pessoas de Aldeia de Joanes:

José Oliveira Marques: “Há muitos anos que entra na nossa casa. Recebemos o símbolo da família. É uma grande festa quando temos junto de nós as imagens de São José, Nossa Senhora e do Menino”.

Mário Vaz Salvado: ”Tenho bem presente o recebimento da Sagrada Família na casa dos meus avós e dos meus pais em Valverde. Era colocada num local de destaque, bem visível, e dirigíamos-lhe muitas jaculatórias. É assim que hoje se faz na minha casa.”

Maria da Glória Brito Rosa Nogueira: “Há mais de vinte anos que recebo na minha casa a Sagrada Família. Comparo esta visita a uma visita familiar, que nos vem confortar e dar força para prosseguirmos a nossa Fé. Quando o meu marido esteve muito doente, tive-a aqui durante uma semana e todos os dias lhe dirigia o meu apelo para melhorar e fui ouvida.”

António Sequeira Fernandes: “Entra na nossa casa o Símbolo da Família Cristã. Uma Família Divina a apoiar uma Família Biológica”.

Maria Teresa Fernandes de Brito Salvado: “A Sagrada Família é Deus que entra em nossa casa e na nossa vida. Com a sua visita alcançamos a paz de espírito que ninguém nos dá.”

Joaquina da Silva Lopes: “Quando tinha o café recebia a Sagrada Família. Infelizmente, de há uns tempos para cá, apesar de a solicitar a quem de direito, não me a entregam em minha casa”. (No seguimento deste testemunho, o responsável pela visita da Sagrada Família aos lares de Aldeia de Joanes, já calendarizou uma data para que esta seja entregue).

Rosa Maria Veríssimo Diogo: “O culto à Sagrada Família em Aldeia de Joanes vem dos tempos do Padre Agostinho Geraldes Castro. Quando eu era criança, e já sabia ler, ia às casas fazer as orações do livro que acompanhava o oratório. A Sagrada Família estava vinte e quatro horas em cada lar e ao pôr-do-sol era levada para outra vizinha. Já lá vão mais de setenta anos e as minhas vivências com esta religiosidade mantêm-se.”

Maria de Lurdes Supico Serra: “Faz parte da minha família, a sua entrada é uma bênção para todos nós. É uma visita que faz parte do nosso culto. Há necessidade de estes gestos, estas visitas nunca devem acabar para bem da espiritualidade das nossas famílias. Explico aos meus netos o seu significado e os simbolismos. Lamento muito que os casais mais novos não recebam nos lares a Sagrada Família.”

Maria Teresa Gonçalves de Brito:” Recebo a Sagrada Família na minha casa porque já era uma tradição da minha avó e da minha madrinha. Apesar de ter uma cópia em casa, gosto de receber estas imagens porque são comunitárias e foi o Senhor Higino ultimamente me incentivou a esta devoção.”

Maria da Luz Gonçalves dos Santos Monteiro:” Receber a Sagrada Família é para mim importante, é como acolher uma família e penso muito ao olhar para estas imagens, rezo pelas famílias desavindas, para que andem bem.

Para fechar este périplo, o Oratório da Sagrada Família visita o Lar de Nossa Senhora do Amparo de Aldeia de Joanes, onde a grande família de idosos e idosas lhe pedem o seu auxílio divino.

Como escreveu Monsenhor Alves Brás, “ a Sagrada Família é o modelo mais completo da família cristã: é a trindade na terra.”

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Dezembro/2015

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