Regressava das minhas origens arraianas, a caminho da Aldeia de Joanes (Fundão), quando fui surpreendido pela notícia da morte do meu vizinho da Quinta da Nave de Baixo. A Morte cava um buraco vazio em todos nós, só compensado pela memória que fica da pessoa que nos deixou. Lembrei-me de imediato do tempo que passei junto deste vizinho, que era também um amigo, a quem podia socorrer em momentos de aflição.

Chegado à minha residência, ainda a manhã era uma criança, ouvi os sinos replicarem no campanário da Igreja Paroquial, uma sonorização própria, pesada, intervalada, compassada, triste, contrastando com os toques festivos do Natal, Páscoa, Casamentos, Batizados e outras cerimónias que tentam iludir a Morte. Agora eram toques de luto e dor, o sineiro era a velha conhecida Morte.
Nasceu no Sobral do Campo, no Concelho de Castelo Branco, e muito novo rumou para as Minas da Panasqueira, iniciando a profissão de mineiro. Durante mais de vinte anos, na companhia do gasómetro e ferramentas perfurantes, desceu às entranhas infernais da mina e arrancou diversos minérios, principalmente volfrâmio. Era necessário alimentar a prole familiar.
Enamorou-se por uma jovem de S. Jorge da Beira que lhe deu três filhos e uma filha. Com exceção do mais velho, todos os outros emigraram para França e Suíça, onde já crescem os netos. Ali têm o futuro que a Pátria lhes nega.
Após alguns anos de vida dura no interior da mina, recebeu um alerta: ou abandonava rapidamente essa actividade ou sofreria de silicose, doença que matara muitos dos seus companheiros. O nosso Mineiro levou a sério o aviso médico e retirou-se prematuramente, com prejuízos na futura reforma.

O Tio Gorritas como era conhecido na gíria dos seus companheiros mineiros, por usar uma boina (uma gorra) basca, partiu para Aldeia de Joanes, junto ao Fundão, com o objectivo de reunir os meios indispensáveis à sua sobrevivência. Alugou uma pequena Quinta Agrícola e aí criava alguns animais (coelhos, galinhas, vacas…), amanhava as terras e cultivava produtos hortícolas. Quase todos os dias a meio da manhã, carregava a carroçaria do pequeno tractor e ia vender à cidade Fundanense. Levava como companhia a sua esposa, que estava entregue às vendas e ninguém ficava indiferente à sua estridente voz. O barulho único do motor daquela máquina de locomoção fazia a diferença de todas as outras.
Um dia teve um acidente na lareira da sua residência, facto que o atirou para o Hospital da Covilhã com queimaduras de 2º grau, afetando parte do corpo. Dada a gravidade do problema, com a alta hospitalar foi reencaminhado para o Lar de S. José na Covilhã, onde permaneceu imobilizado, durante alguns meses.
No primeiro dia de Setembro, mês de transições, fechou o ciclo da vida terrena. Nas cerimónias fúnebres leu-se uma passagem do Apocalipse: “…e foram abertos os livros. Foi também aberto outro livro, o Livro da Vida. Então os mortos foram julgados de acordo com a sua vida, conforme estava escrito nos livros…” E foi do Livro da Vida que surgiram os companheiros solidários da mina e a oração do rosário de Higino da Serra Cruz, filho de um mineiro vítima de silicose, que prestou uma homenagem muito digna ao companheiro do seu pai, no percurso para o Cemitério de Aldeia de Joanes.

No dia 2 de Setembro, o nosso Mineiro, António Marques Ricardo, desceu à terra, desta vez sem a luz do gasómetro. Tenho fé que à sua espera estará Santa Bárbara, Padroeira dos Mineiros, que o guiará nas galerias subterrâneas até ao local certo, seguro e luminoso.

António Alves Fernandes
Aldeia de Joanes
Setembro/2014

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