Nas itinerâncias culturais do Município do Fundão, vivemos as comemorações do décimo aniversário da ESTE (Estação Teatral da Beira Interior). As Freguesias do Souto da Casa, Alcongosta, Valverde, Salgueiro, Fundão e Aldeia de Joanes são palcos que celebram essa Companhia de Teatro.
No dia 26 de Outubro, o teatro entrou em Aldeia de Joanes com a peça“ A Entrada do Rei”, representada ao ar livre no Páteo da ADCRAJ (Associação Desportiva Cultural e Recreativa de Aldeia de Joanes).
Iniciou-se a representação cénica na presença de uma centena de pessoas, a cultura já não desperta o interesse de antigamente, recordo os tempos em que até numa garagem a comunidade assistia a peças teatrais. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, infelizmente não é só no teatro…
Jacinto Cordeiro foi autor do texto, encenado por Nuno Pinto Custódio e vivificado pelos grandes atores Roberto Querido e Tiago Poiares (não é da família do Maduro). “A Entrada do Rei”-, ou melhor dizendo, “A Entrada Cómica do Rei” conta a história de Filipe III de Espanha, II de Portugal, que ao fim de vinte anos cumpriu a promessa de visitar Lisboa. Um pajem, com os dedos hirtos da mão, no coruto da cabeça real, representa dois chifres, imagem maravilhosa para reproduzir em peças de porcelana das Caldas da Rainha por Bordalo Pinheiro.
Mas um dia, há sempre um dia, resolve partir para Lisboa, via Trujillo, Mérida e Badajoz. Entra em território nacional pela fronteira de Elvas por estrada intransitáveis e uma cidade a necessitar de cuidados de higiene. Segue-se Extremoz onde assiste a uma cerimónia religiosa, em Évora passa pela Praça do Giraldo, ao lado de uma fogueira acesa pela Inquisição, para queimar umas bruxas malditas, embora muitos digam que não as há, las hay. Passa por Montemor, onde não saboreia as célebres bifanas, pois Vendas Novas reivindica esta invenção gastronómica, e para não ferir sensibilidades, conforma-se com umas sopas de ervas aromáticas enquanto ouve o Cante Alentejano. Chega ao alto de Almada, sem a bênção do Cristo Rei, e observa o Tejo e Lisboa.
O Rei da Dinastia Filipina, Senhor de Espanha, de Portugal, dos Algarves, daquém e além-mar, de África, de Nápoles à Sicília, chega ao Centro de Lisboa. Como sempre, os portugueses guardam para a última hora os preparativos da duvidosa receção real.
Antes saboreia uns pastéis de Belém, mas com o receio de que os sepultados Vasco da Gama, Camões e D. Sebastião, se levantem das campas e o expulsem. O incómodo hóspede não se atreve a entrar no Mosteiro dos Jerónimos.
Enquanto o Filipe III de Espanha, Segundo de Portugal, recebe as ovações pelas ruas dos ourives, almocreves, ferreiros e outras profissões afins, a fidalguia debate-se com lutas de amantes, orgias sexuais em bairros lisboetas, atraiçoando-se mutuamente.
Em poucos meses, o apático Rei Filipe, Segundo de Portugal, deixa as finanças públicas devastadas pelos inúmeros e desnecessários gastos, política que tem tido muitos seguidores nos últimos anos. De “ Espanha nem bom vento, nem bom casamento”. Essa Pátria ocupada libertar-se-á do jugo castelhano.
Parabéns à ESTE, que acaba de festejar o seu 10º Aniversário, uma dezena de anos a criar teatro neste maravilhoso cenário da Cova da Beira. Conta já vinte e cinco peças de teatro, esta Companhia de Teatro que tem levado de Norte a Sul de Portugal “ uma dramaturgia própria, uma linguagem artística e uma memória coletiva da Beira Interior”.
Na Moagem do Fundão, uma ótima exposição recorda os dez anos de atividades teatrais, com memórias partilhadas através de fatos, fotografias, rostos de gentes, locais…
Parabéns à ESTE e a toda a sua equipa de colaboradores, técnicos e criativos. Enquanto espectadores, esperamos celebrar mais anos.

António Alves Fernandes
Aldeia de Joanes
Outubro/2014

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