Aldeia de Joanes

Recordar um sapateiro, teólogo, e poeta.

Nasceu e viveu na parte histórica e medieval de Aldeia de Joanes, na Travessa do Castelo. Era ali o Centro das Atividades Laborais, Comerciais, Escolares, Autárquicas e Religiosas. Ali estavam em funcionamento quatro oficinas de sapataria – a de António Portugal, António Gonçalves Ribeiro, Álvaro Sampaio e António Gregório da Costa Ribeiro -, uma pequena Moagem de Farinha de Patrocínia Fazendeiro, uma Cestaria de Luís Alberto, duas Tabernas – Mercearias de Manuel Bernardo Campos, e de Alberto Duarte Garcia, (onde funcionou a primeira televisão em Aldeia de Joanes), um Matadouro, Talho e Salsicharia de Joaquim Almeida (enchidos que mais tarde chegaram à mesa do Papa João Paulo II), uma costureira Teresa Maria Delfina e Costa, uma Carpintaria de Álvaro Lambelho, Alfaiataria de Manuel Carlos, a Forja de Adelino Salvado, a Serralharia do Manuel Manique, Oficina de Reparações de António Gonçalves Couto, Duas Barbearias de António Manuel Ramos e Álvaro Lopes Carriço, uma Loja de venda de fruta e legumes de Manuel Bolinha, dois Fornos respetivamente de Maria Rosa Nunes e de Isabel das Dores. A completar este quadro socioeconómico, o funcionamento da Escola Primária, a Junta de Freguesia (Casa de António Vaz Roxo e Manuel Bernardo de Campos) e, logo ali, a Capela de Nossa Senhora do Amparo de grande devoção das gentes de Aldeia de Joanes. Também ali nasceu a ADCRAJ (Associação Cultural Desportiva e Recreativa de Aldeia de Joanes), que ali teve a primeira sede. Mais tarde passou para um edifício com instalações próprias, onde se desenvolvem atividades diversas. Acaba de festejar o aniversário com tinta e um ano de idade.

Era filho único e nunca casou, esteve sempre muito ligado à mãe. Uns afirmam que os gatos nunca foram animais da sua estimação, outros juram que tinha um felino que o acompanhava muitas vezes, o certo é que nunca se saberá a verdadeira razão que motivou a alcunha de “ Tó Miau”.

Era um grande conversador e foi companheiro inseparável, principalmente nas férias, de um jurista e professor de direito – Dr. Orbílio Barbas- seu vizinho e conterrâneo. Sempre que nas suas conversações registavam concordância, o nosso homem afirmava: “acredito, sim senhor.” Tinha sempre uma opinião formada, algo de novo a explicar, por exemplo as calorias necessárias num copo de vinho para moldar as solas dos sapatos.

Um vizinho que troçava das suas condutas vinícolas, respondeu-lhe, “já tens corcunda nas costas/E barba a desmaiar/Não chegas a ouvir o cuco/Se o Inverno apertar.”

Nunca casou, mas admirava as belezas femininas e perguntava-lhes, “ ó menina como vai de coração, olhe que eu sou um locutor da vida.”

Às vezes deixava-se levar pela euforia noite fora e ia para a varanda da sua residência e ali cantava. Não havia vizinho que não conhecesse a letra da cantiga do “Tó Miau”: “a rolinha está chorando/Porque lhe tiraram o ninho/Porque o fizeste tu, ó rola/ Tanto à beira do caminho.” Quando se cansava, informava a vizinhança, “agora vou-me arrecadar.”

Era um brilhante profissional – do velho fazia novo-, mas infelizmente muitos clientes esqueciam-se de lhe pagar os trabalhos realizados…

Um dia a mãe, sua companheira afetiva, morreu e o nosso sapateiro ficou só. Era necessário alguém dar-lhe uma mão, uma ajuda social e psicológica. Todos assobiaram para o lado e o nosso Homem desesperou e foi acossado por um doença incurável que o levou à morte.

No dia do funeral, alguém pediu, no final das exéquias e após exame prévio do celebrante, para ler um texto, lembrando que todos somos culpados pela morte do António “Sapateiro”.

Este HOMEM, na última festividade em Aldeia de Joanes, em honra de Nossa Senhora do Amparo, de regresso ao arraial nos Olivais, foi interpelado:

– De onde vem o amigo?

– Amigo, venho da Missa, na noite de hoje nunca falto.

– Mas afinal, o que foi lá fazer?

– Amigo, eu fui lá ouvir as verdades eternas do Evangelho.

Com uma resposta destas, o nosso Sapateiro Teólogo só pode estar no Reino dos Céus.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Março/2015

Aldeia de Joanes – Recordar um sapateiro, teólogo, e poeta.

Aldeia de Joanes – Recordar um sapateiro, teólogo, e poeta.

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