ALDEIA DE JOANES – UM MECÂNICO-EMPRESÁRIO-AUTARCA-DIRIGENTE DESPORTISTA

Nasceu há mais de oito décadas em Aldeia de Joanes, oriundo de uma família rural. Para responder às despesas do volumoso agregado familiar, um homem tinha que arregaçar a mangas e ser pau para toda a obra. Ajudando o seu pai na tarefa de Barbeiro, deslocava-se aos quinteiros todos os domingos, o dia “ santo de guarda “ que requeria um ar mais apresentável, o que levava o nosso Homem a cortar uma barba mais atrasada ou um cabelo mais crescido. Além desta tarefa extra, o seu progenitor – António Manuel Ramos -, exercia as funções de sacristão da paróquia e o nosso Homem lá o apoiava. Todos os que frequentavam os atos de culto têm bem vivos nos ouvidos as músicas fúnebres, quaresmais e natalícias que enchiam por completo a Igreja Matriz, entoadas por António Ramos.

O nosso Homem chama-se Álvaro Lambelho Ramos, e foi necessário um esforço duplicado para me dar os apontamentos de uma vida tão intensa e multifacetada que daria um romance.

Até aos catorze anos, percorreu os caminhos rurais de Aldeia de Joanes. Além de ajudante de barbeiro e de sacristão, ajudava também os seus pais nas fainas agrícolas.

Um dia apareceram dois grandes empresários fundanenses, donos da Auto Transportes do Fundão, Lda., e que fundaram a Metalúrgica do Fundão, dando quota a dois dos seus empregados – Alberto Carvalho e Júlio.

Pela intervenção de Alberto Carvalho, entrou como aprendiz de mecânico, e durante um ano não recebeu qualquer vencimento: “estava em formação profissional e entendiam que não precisava de qualquer pecúlio. A aprendizagem de mecânica, não permitia qualquer salário, eram assim os tempos.” Hoje seria considerado exploração da mão-de-obra infantil. Em todo o caso, a verdade é que durante doze anos aprendeu bem a arte da mecânica, principalmente do ramo automóvel, o que o catapultou para os maiores êxitos profissionais e empresariais.

Entretanto, a Metalúrgica do Fundão abriu a Garagem de S. João na Covilhã, e o mecânico de Aldeia de Joanes foi escolhido para chefiar essas oficinas, dirigindo, com apenas vinte e poucos anos, o trabalho de cerca de quarenta profissionais. Sentia que estava na curva ascendente da sua vida.

Ao fim de mais uma dezena de chefias, quis trabalhar por conta própria como empresário nesta área. Preparava a compra de umas oficinas e bombas de gasolina no Fogueteiro (Setúbal), quando surgiu a falência do Industrial Manuel Conde, no Ramo dos Lanifícios e Automóvel na Guarda. Álvaro Ramos conseguira, entretanto, a representação da Opel nos concelhos da Covilhã, Fundão, Belmonte, Penamacor e Manteigas, com instalações no Largo de S. Francisco.

Estas atividades no ramo automóvel – reparação e manutenção, venda de automóveis e exploração de uma gasolineira- iniciaram-se em 1970 e terminaram em 2012.

Durante este longo período, candidatou-se à Câmara Municipal da Covilhã como independente, apoiado pelo PSD e CDS, ganhando na mesa das eleições a presidência legítima dessa autarquia, durante um mandato.

Encontrou uma Câmara Municipal “ falida, sem dinheiro para comprar uma vassoura“. Foi forçado a reabilitá-la financeiramente durante um mandato. Não se arrepende deste trabalho autárquico. Diz que a maior vitória do 25 de Abril foi o poder autárquico ter desenvolvido uma ação enorme e preponderante para dar resposta às necessidades e anseios das populações e promover o desenvolvimento local e regional. Sem este poder, não haveria progresso neste país.

Neste trabalho municipal aprendeu muito, viu muita coisa, uns dos aspetos mais confrangedores e negativos, é que “os bons funcionários da Câmara recebiam igual vencimento que os indivíduos medíocres, quase nulos”.

Deixou as finanças da Câmara com dinheiro e património e nem sequer foi receber umas verbas às quais tinha direito.

A sua gerência municipal foi valorizada e considerada, recebendo a Medalha de Mérito Municipal.

Com o emblema de ouro de Sócio do Sporting Clube da Covilhã, durante todos estes anos tem acompanhado este clube desportivo, onde desempenhou funções dirigentes de relevo. O ponto mais alto do dirigismo concretizou-se quando chegou a Presidente da Direcção em 1985. Sem grandes orçamentos e sem craques, conseguiu ajudar o Clube a subir à Primeira Divisão Nacional com muito amor à camisola.

Quem o observa, admira a sua simplicidade, o fácil diálogo, a familiaridade e sabedoria empresarial. Afirma com grande convicção: “sempre que entrei em qualquer lugar e desempenhei funções, nunca ninguém me mandou embora. Saí sempre com os meus pés.”

Um dos seus grandes passatempos sempre que possível, foi dedicar-se ao desporto da caça.

A geração destes HOMENS, que nasceram do nada, que ajudavam os Pais ainda crianças, que começavam as suas profissões como aprendizes, sem nada receberem, foram operários impares, mestres, empresários, autarcas, dirigentes desportistas, com uma ação cívica e social dignas de registo.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Maio/2015

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