ALDEIA DE JOANES – UM MÚSICO SONHADOR

Nas festas natalícias veio até às suas origens em Aldeia de Joanes. Há muito que anda a investigar os ramos da sua árvore genealógica dos Alves Nogueira e dos Barbosas. É neto de Ricardo Barbosa e de Esmeralda Aves Nogueira e filho de Francisco Nogueira Barbosa, naturais de Aldeia de Joanes e de Maria Cecília Duarte Ferro, natural de Santa Eulália (Alentejo).

Descobriu que o seu avô paterno, que não conheceu, fez diversas obras no Fundão, e, por motivos económicos, teve de emigrar para Lisboa.

Os pais desejavam que o filho fosse engenheiro, mas a sua vocação era a música: “sou de uma família de músicos, os meus avós maternos alentejanos e os meus familiares de Aldeia de Joanes tocavam e cantavam músicas tradicionais, a música corre-me no sangue.”

Ingressou no Colégio dos Salesianos em Campo de Ourique (Lisboa), e aos seis anos iniciou a aprendizagem musical na viola, orientado pelo mestre Padre Agostinho. Aos treze anos, foi substituir um dos famosos guitarristas do Conjunto Musical dos Salesianos, que abrilhantava as Eucaristias Dominicais e outras Festividades dirigido pelo Padre Cardoso. Sentiu que dera um grande passo, tocava com grandes craques musicais, um deles – grande violinista-, o professor Carlos Passos. Estes estímulos foram de tal ordem importantes, que fundou um conjunto musical.

Em férias escolares foi até Montemor- O- Novo e depressa se integrou no conjunto musical local, tocando baixo e atuando na comunidade paroquial, entre outros eventos. Da música espiritual (música de igreja) caminhou para os blues (Go Graal Blues Band) com a Maria João.

No serviço militar, integrou durante quatro anos a Orquestra Ligeira do Exército, percorrendo o país e conhecendo nomes de referência nacional como Mário Laginha e o grande maestro Almeida Morais.

Hoje, aos cinquenta e cinco anos, tem um invejável curriculum.

Como músico profissional, acompanhou e gravou com alguns dos principais artistas nacionais; participou em diversos festivais nacionais e estrangeiros; como compositor escreveu diversos trabalhos para cinema e teatro; organizou doze festivais de Jazz.

Entre 1992 e 1997, desempenhou as funções de diretor artístico do Coliseu do Porto.

Gravou um C.D. na China com Wong On-Yuen, músico que toca ER-HU (Violino Chinês de duas cordas.)

Na atual fase da sua vida confessa-me: “cada vez estou mais interessado em fazer trabalhos musicais para crianças, o nosso futuro, os homens e mulheres de amanhã, e para a terceira idade, a terceira geração, como lhe chamo, tão esquecida e desvalorizada, e afinal são aquilo que nós queremos ser, chegar àquelas metas, chegar à velhice…

Está a escrever uma sinfonia, à qual deu o nome de FRANCISCO, dedicada ao Papa Francisco, a fim de ser apresentada no Vaticano, num dos próximos aniversários do Santo Padre, pela Orquestra do Norte, sob direção do Maestro Ferreira Lobo, com textos de Fernando Pessoa.

Em Fevereiro próximo, apresentará o seu primeiro livro – “Nascer aos Cinquenta” – da Editora Lápis Lasuli. Tem no prelo mais duas obras, uma para 2017 – “História da Música e dos Músicos”-, e outra para 2018 – “E se a Lua engravidar do Sol?”

Partimos para um novo dia, ainda com os sons das guitarras e das violas na Grande Noite de Fados em homenagem ao fadista fundanense Mário da Silva, onde o nosso músico sonhador participou, tocando solidariamente o seu baixo acústico.

António Manuel Ferro Barbosa, que inúmeras vezes assistiu a casamentos, batizados e aniversários de familiares em Aldeia de Joanes, jamais esquece os odores da cera das velas, nas ruas da procissão noturna a Nossa Senhora do Amparo, das cerejeiras em flor, dos sabores das frutas da Beira Baixa, das cerejas carnudas, dos queijos, das couves untadas com azeite virgem, das doçarias que são o prazer musical da memória.

António Manuel Ferro Barbosa, um conversados nato, um músico sonhador: “vale a pena sonhar o que sonhei”, e é oportuno citar este poema de Miguel Torga, “ Recomeça…/Se puderes/Sem angústia/E sem pressa./E os passos que deres,/Nesse caminho duro/Do futuro/Dá-os em liberdade./ Enquanto não alcances/Não descanses./De nenhum fruto queira só metade./ E, nunca saciado,/Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar./Sempre a sonhar e vendo/O logro da aventura./És homem, não te esqueças!/Só é tua a loucura/Onde, com lucidez, te reconheças…”

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Janeiro/2016

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