Há dias faleceu Maria Tavares Cruz Carneiro, quase a atingir os cem anos, a pessoa mais idosa da Freguesia de Aldeia de Joanes.

Esta distinta, piedosa, justa e generosa cidadã, viveu mais de cinquenta anos na Quinta das Tílias, deixando o seu berço natal – a cidade da Covilhã.

Os seus sogros – Fernando Carneiro e Albertina Nazareth Garcia Carneiro -, compraram aquela Quinta nos primórdios do século passado, uma grande área agrícola dedicada principalmente à vinha e ao olival, as suas duas principais riquezas. Para ali se deslocavam centenas de assalariados agrícolas, de Aldeia de Joanes, Telhado, Souto da Casa, Aldeia Nova do Cabo e de outas povoações limítrofes. Com as enxadas surribavam a terra para plantação do vinhedo e outros trabalhos afins. A Quinta das Tílias tinha uma Adega própria, para comercializar a produção vinícola. Era uma empresa agrícola que empregava muita gente e consequentemente dava o sustento a muitas famílias.

No final da vindima e da colheira da azeitona, a Família Carneiro contratava o “Zé do Telhado”, não aquele que estão a pensar, mas sim o Tocador de Harmónio e Concertina, que abrilhantava o baile em que toda a gente dançava até de madrugada.

Maria Tavares Cruz Carneiro casou com o seu conterrâneo Armando Túlio Garcia Carneiro, e desta união conjugal nasceram dois filhos e uma filha.

Armando Carneiro frequentou o Liceu no Colégio de Maria da Santíssima Imaculada em Pasaje, La Guardia em Espanha e no Instituto Nuno Álvares em Caldas da Saúde – uns Colégios dos Jesuítas. Findos os estudos liceais, seguiu para Inglaterra, onde se formou em Engenharia Têxtil, sendo obrigado a regressar a Portugal, em virtude da 2ª Grande Guerra Mundial e por insistência do pai. Fixou residência na Covilhã, exercendo a sua profissão na Empresa de Lanifícios Carneiros, Lda., da qual era sócio.

Com o fecho da Empresa, veio para Aldeia de Joanes, “assentando ferros” na Quinta das Tílias, onde se dedicou à agricultura.

Desenvolveu uma grande ação cívica, social e religiosa, destacando-se no exercício, durante alguns anos, do cargo de Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Fundão, assegurando o funcionamento do Lar e do Hospital dessa Instituição. Também integrou os Corpos Gerentes da Adega Cooperativa do Fundão, Servita em Fátima durante vários anos, os Corpos Sociais da Irmandade de S. Vicente e Almas de Aldeia de Joanes e o Grupo de S. Martinho do Fundão. Em 24 de Agosto de 1988 faleceu e está sepultado no Cemitério de Aldeia de Joanes.

Maria Tavares da Cruz Carneiro, apesar da idade avançada, gostava de ver os jogos na TV do seu Clube do coração – O Sporting Club de Portugal.

Tinha apenas uma preocupação que um dia partilhou: “quando começar a dar trabalho que Deus me leve.“ Numa tarde de Janeiro partiu, serena, como sempre viveu.

Esta Família Carneiro foi de uma grande generosidade e altruísmo, como confirmam as mães e os filhos que a conhecem. Do Livro “Ilustres e Desconhecidos – Meio Século de Memórias do Fundão”, da autoria de Fernando Nogueira Gonçalves, retiro estes versos: “Já esquecia o Carneiro./Armando era o seu nome,/que me deu muito brinquedo/quando eu era pequeno/ e vivia lá no seu monte.” Ontem como hoje, importa celebrar gestos afectivos como o de dar um brinquedo a uma criança, que não sendo da nossa família de sangue, nos pertence enquanto comunidade.

Na Igreja Matriz de Aldeia de Joanes, onde aconteceram tantos momentos felizes, vivemos agora uma hora de luto, a partida de uma mulher que viveu em plenitude, partilha e generosidade. Atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher. Espero que o seu exemplo não se esqueça. Paz à sua Alma.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Janeiro/2015

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