Alpedrinha – Afinal ainda há pastores!

Num encontro ocasional com Luís Manuel Martins dos Santos, homem de corpo e alma em Alpedrinha, filho do “Tio Eustáquio”, recebo o repto para me deslocar a essa vila para ver a apresentação dos “ CHOCALHOS – FESTIVAL DOS CAMINHOS DA TRANSUMÂNCIA”, a realizar de 18 a 20 de Setembro.
É companheiro de viagem David Soares, natural da Capinha (Fundão), que iniciou a vida profissional aos dez anos como pastor. Em 1959, aos treze anos, foi de assalto para Paris, juntando-se ao seu progenitor.
Chegados a Alpedrinha somos obsequiados com uma chanfana feita e servida ao ar livre pelos pastores presentes. Lembro-me do escritor Manuel da Silva Ramos, que aqui teria matéria para saborear e escrever mais uma belíssima cronica no Jornal do Fundão.
Vamos ouvir alguns pastores presentes e recolher a sua opinião sobre a temática da pastorícia e da transumância.
António Filipe Lopes, 89 anos, de Vale Prazeres, residente em Alpedrinha, um ícone do Festival dos Chocalhos: ”estava na barriga da minha mãe e já guardava ovelhas. A minha vida foi quase totalmente dedicada aos rebanhos e com a morte do meu pai, tinha 16 anos, houve necessidade de ajudar os meus irmãos. Durante este longo percurso pastorício, o que mais me custou foi a recusa das raparigas dançarem comigo porque cheirava a ovelhas.” (Trata-se de um pastor enciclopédico).
João Cruz, 25 anos, Castelo Novo: “é uma profissão bonita mas muito trabalhosa. Não temos horários nem férias, dedicamo-nos a tempo inteiro e não há sindicato que nos defenda. A maior alegria é vermos nascer as crias com o aumento do rebanho e a maior tristeza é suportarmos o inverno com frio e neve, mas as ovelhas têm de comer.”
Gil Cabecinha da Cruz, 50 anos, do Sabugueiro (Seia), 17 anos de pastor, abandonou por problemas de saúde e declama estes versos: “ Na Serra o que mais se sente/A saudade do amor/O leite é branco para a gente/Só é negro para o pastor.” Fez um apelo público para todos não faltarem ao próximo Festival dos Chocalhos.
António Parente, 46 anos, de Vinhó (Gouveia): “ é uma vida de loucos porque só se faz por gosto. Não é rentável, sobrevivemos. Temos uma vida saudável, ar puro, o rebanho não nos agride e é solidário. Até os cães nos respeitam.”
António da Costa Lameira, 74 anos, de Vila Franca da Beira (Oliveira do Hospital): “nunca fui mandado por ninguém. Quem manda no rebanho sou eu. O pior de tudo é o frio e as trovoadas. O nosso dever é estar e orientar o rebanho.”
Luís Amaral, 50 anos, de Santiago (Seia): “ a vida do pastor está cada vez pior, as rações caras, a lã não se vende, o clima a não ajudar as pastagens, os apoios recebidos não dão para o petróleo.”
José António Freire Cardoso, 53 anos, de Unhais da Serra: “ser pastor é como ser padre, embora seja mais difícil ser padre que pastor, pois este dobra melhor as ovelhas do que aquele os homens. Ser pastor é uma profissão como qualquer outra, mas exige paixão, dedicação e amor pelos animais. Sou conhecido como “ o Pastor Trinitá “, em homenagem às coboiadas que tanto gosto“.
António Fernandes Lopes, 54 anos, de Alpedrinha: “nasci e já era alimentado por leite cru de cabra, pois fervido já não tem o mesmo gosto. Veio a doença da brucelose e tive de o deixar de beber como queria. Tenho um projeto para povoar o sul da Gardunha com cabras e ovelhas, um bom método natural para prevenir incêndios.”
Gonçalo Ribeiro, 13 anos, de Vila Cova à Coalheira (Seia), o mais jovem pastor presente: “ gosto de guardar as ovelhas, o meu pai levava-me desde bebé a acompanhar o rebanho e a conhecer as pastagens. Esta profissão de pastor tem futuro, porque há muita gente que gosta de animais e sabe trata-los. Quando acabarem as ovelhas, os animais, o mundo também acaba”.
“Pastores” e “rebanhos”, duas palavras mágicas e arrepiantes que também aprendi no berço natal. Pastor foi a primeira profissão do meu saudoso Pai – José Maria Fernandes Monteiro, na Bismula (Sabugal). Dizia-me: “ filho, a melhor profissão do mundo é ser pastor, porque somos os únicos a resolver os problemas e estamos mais perto do firmamento, mais perto das estrelas.”
Já a tarde vai adiantada, ao som do pífaro do mestre de pastorícia – António Filipe Lopes, o decano dos pastores -, e do Grupo dos Bombos Zabumbas de Alpedrinha, despedimo-nos destes heróis.

António Alves Fernandes
Aldeia de Joanes
Setembro/2015

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