ARANHAS – O ZÉ DOMINGUES

Há sete décadas nasceu nas Aranhas, filho de um agricultor, sapateiro, e de uma vendedora de farinha. Como o dinheiro andava ausente da maioria das mãos dos portugueses, as trocas comerciais eram com produtos da terra.

O filho escreveu no seu livro: “O meu pai é sapateiro/Minha mãe vende farinha/Quando lá vão os fregueses/Perguntam, se ela é branquinha?”

No rescaldo da II Guerra Mundial, só o filho do sapateiro tinha direito a andar calçado, e só se descalçava nos jogos de futebol, porque os seus conterrâneos não tinham sapatos, muito menos chuteiras. Um dia cortou-se num vidro e foi para a baliza, era um guarda-redes que defendia bem, embora com os pés feridos.

Nasceu na data de 23/2/1946,batizado em 31/3/1946, mas no registo de identificação, só é registado a 23/2/1947. Nos “papéis” é cerca de um ano mais novo.

Mal concluiu a 4ª classe, seguiu para Castelo Banco, a fim de frequentar a Escola Industrial e Comercial.

Obtido o Curso Geral do Comércio, foi para Alverca do Ribatejo, onde residia um seu irmão, à procura de trabalho. Deslocou-se à SOMEC, uma empresa ligada à construção civil, onde foi informado que só havia admissão para serventes de pedreiro e de carpinteiro. Não hesitou, ocultou as habilitações literárias e candidatou-se a servente de carpinteiro. Perguntaram-lhe se percebia alguma coisa de carpintaria, é claro que não percebia nada, mas informo que lá, na sua terra natal, tinha andado por algumas carpintarias, iria desenrascar-se. Ao fim de algum tempo, o Chefe de Carpinteiros apreciava já o seu trabalho.

Um dia, um amigo que trabalhava no escritório, estudante do curso noturno, pediu-lhe explicações de contabilidade. O Zé Domingues acedeu, pedindo-lhe apenas para nunca divulgasse que obtivera Curso Geral do Comércio. O Explicando, na falta de pessoal no escritório, não se conteve e informou o Engenheiro Gerente da Empresa, que mandou chamar o Explicador, despedindo-o imediatamente por excesso de qualificações. O Zé ficou triste e incorformado, justificando que estava a dar o máximo no seu posto de trabalho, pelo que não havia motivo de despedimento. Apelou para que se chamasse o Chefe da Carpintaria. Este deu as melhores referências profissionais do nosso Homem. O Engenheiro voltou à carga: “o senhor omitiu as suas habilitações literárias, mas, analisado bem o assunto, a partir de amanhã vai trabalhar para a Contabilidade desta Empresa”. Aí, o nosso Homem organizou o serviço, criando pastas gerais para todos os assuntos e pastas individuais para todos os trabalhadores.

Mais tarde concorreu como funcionário público ao INE (Instituto Nacional de Estatística) onde foi admitido a ganhar melhor vencimento. Aqui trabalhou durante oito a nove meses.

De seguida foi marcar passo nas fileiras do Exército, inicialmente nas Caldas da Rainha e em Leiria, onde tirou o Curso de Furriel Amanuense. Depressa embarcou para a Guiné, passou por todos os postos militares de abastecimentos, muitas vezes com perigo de vida. A nota mais positiva foi o convite do seu conterrâneo e familiar – Capitão Vaz Ramos -, para atuar com a sua voz e viola no Quartel-General, para um Batalhão de Militares. O nosso Homem além de muitas canções, cantava uma, que fez aos Pais, quando da sua vinda para a Guiné, era assim:

“ Oh Mãe!…/Nunca te vi chorar tanto por mim/Oh Mãe!…Nunca te vi gritar tanto por mim/Vou para o Ultramar/E fui-me despedir/Minha Aldeia vi chorar/E eu chorei a partir/Jamais esquecerei/O abraço de despedida/ O meu peito apertei/Ao teu oh Mãe querida/Oh Mãe!…Não fiques assim por mim a chorar/Oh Mãe…/Eu tenho fé que um dia hei-de voltar./Foi a primeira vez/Que vi meu Pai chorar/A soluçar nos meus braços/Disse: “ Filho hás-de voltar”/Adeus oh minha Aldeia/Pede o meu regresso/Reza pela Pátria/À Senhora do Bom Sucesso.”

Regressado a Portugal em Julho de 1971, voltou a trabalhar no INE, mudando para a Companhia dos Telefones de Lisboa e Porto, (TLP), por usufruir um melhor salário.

A sua última etapa foi no Banco Pinto e Sotto Mayor, de onde se reformou no ano dois mil, depois de 28 anos de serviço.

Extra profissão, dedicou-se à pintura, desenho e à música. Foi vocalista, tocador de viola e autor de várias letras em vários conjuntos musicais: “A MALA” nas Aranhas em 1967, “OS DIABÓLICOS” na Póvoa de Santo Adrião e “SOL E DÓ” no Fundão.

Também se aventurou na Pintura, com a frequência num Curso de Pintura e Desenho em Lisboa, as suas Obras merecem destaque: a pintura a Óleo de João Couchinho, figura típica das Aranhas; uma imagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso; telas como de “Velha se volta a menina” ou a Pietá; pinturas de flores e vários retratos a carvão das gentes das Aranhas; cenários e painéis as Ermidas da Semana Santa no Fundão; ou pinturas dos arcos das Marchas Populares do Fundão em 1990. Já fez diversas exposições.

No campo da literatura, publicou o Livro “ARANHAS E O ZÉ DOMINGUES”, onde faz menção das tradições populares, as cantigas e o teatro. A sua História da Burra é simplesmente delirante. Também colaborou e fez parte da Comissão da Edição do Livro “ARANHAS – ONTEM E HOJE” e, além de ser ator amador de teatro, ainda escreveu a peça “O SEGREDO DE UM PAI”, que aborda a temática da emigração.

Desenvolve, desde longa data, uma grande ação cívica, cultural, poética e social, participando ativamente em diversos certames de artes na Liga dos Amigos das Aranhas, nas Festas da sua Aldeia – Aranhas.

Escrevi sobre o Zé Domingues, um cidadão de corpo inteiro, com residência no Fundão, nas Aranhas (Penamacor) tem o coração.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Dezembro/2016

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