AS BENGALAS DE UM HOMEM

“Qual é a coisa qual é ela que ao amanhecer anda com quatro pernas, ao meio dia com duas e ao entardecer com três? É o Homem”.

Acordo com este ensinamento dos gregos antigos, que um dia abriu a porta de uma cidade a um Rei Vagabundo.

Felizmente, o nosso Homem, no entardecer da vida, tem tido várias pernas para contrariar o desequilíbrio da velhice, agora que é manifesto que o tempo não volta para trás.

Hoje desce a Av. Eugénio de Andrade (Fundão) amparado pela bengala da esposa que agora é como uma Mãe, sempre vigilante (só peca por excesso), Anjo da Guarda de noite e de dia; pela bengala dos seus dois filhos que apoiam o Pai com carinho e preocupação; pela bengala de familiares e amigos (hoje é a Fátima e a Maria da Luz que o surpreende com uma nova bateria para o telemóvel que o nosso Homem perdera).  

Com tantas pernas, o nosso Homem parece uma centopeia a caminho da esplanada de um café, para tomar um descafeinado e ler os jornais diários, pequenos prazeres que os médicos ainda não proíbem.

Do interior do café, sai o bem-disposto Dr. Sampaio Lopes:

– Como vai o nosso Homem, o Sr. Director?

– Não tão bem como o Sr. Governador Civil. Ando nas mãos dos médicos, estou chapado.

– Desde que não apanhe um médico como o Miguel Torga… Olhe que o gajo tinha tanto de poeta como de forreta, auscultava os doentes apalpando a carteira.   

– Parece que não poupava um cêntimo a um pobre na Cadeia. Saiba que nunca ninguém visitou tantas vezes a Cadeia de Castelo Branco como o Sr. Governador Civil.

– Era para me ir ambientando caso houvesse um desfalque no Governo Civil. Acredite, Sr. Director, que não há como uma visita à Cadeia para dissuadir a prática de crimes, por mais tentadoras que sejam algumas reclusas.

Rimos a bandeiras despregadas. Pergunta o Dr. Sampaio Lopes:

– Então e qual é o seu maior desejo para este Natal?

– Olhe, gostava que as pessoas se ajudassem mais umas às outras, que me fossem perdoados alguns disparates que fiz ou disse devido à frustração pela malvada doença, que o cunhado voltasse a dar as boas festas à cunhada, que o neto abraçasse o avô, que os irmãos esquecessem os bens materiais e as diferenças de feitio e voltassem a falar, que as memórias dos entes queridos ausentes fossem respeitadas, que as famílias não se embrulhassem em prendas e abrissem o coração solidário a outras famílias.

– Esse, sim, seria o Natal mais bonito.

Ao som das canções natalícias da cidade, despedem-se com um abraço fraterno, desejando um melhor ano para todos.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Dezembro/2017

  

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