AS TOUPEIRAS

Aprendi, ainda criança, a conhecer as toupeiras, nas pequenas terras de cultivo dos meus saudosos Pais, na Zona Arraiana, da minha aldeia Bismula (Sabugal). Não era necessário contrabandeá-las em Almedilla, terra castelhana.

Elas, há muitos séculos tinham o seu habitat natural na maior parte do território nacional. Aqui era e é um Paraíso Terreal, em que nada nem ninguém as combate.

O meu Pai, quando regávamos os batatais, milhos, feijões, ou quando semeava os nabos, os centeios ou as ervas para alimentação dos gados, avisava-me sempre: “filho, se vires uma toupeira a remexer as terras, dá-lhe uma sacholada, não tenhas receio de matá-la, porque é um bicho que na calada da noite dá muitos prejuízos à nossa débil agricultura. Além disso é um bicho nojento”. Quando acontecia esse “crime de homicídio” ficava triste, ao mesmo tempo enojava-me ver um animal feio e estranho. Tinha de cumprir as ordens paternais.

Em termos de prejuízos nos campos agrícolas só lhe ganhavam os javalis, mas para esses há os caçadores que lhes tratam da saúde.

Em Aldeia de Joanes (Fundão), na minha minúscula reforma agrária, também coloquei em prática os ensinamentos do meu Pai. Sempre que aparecia aquele mamífero a maltratar as minhas culturas (não era fácil detectá-lo), tinha a respectiva sentença lida. Ali aprendi uma nova estratégia: um tubo de plástico um pouco maior que o seu tamanho, colocado onde o bichinho deixava vestígios. Quando regava a pé e a água invadia o seu território labiríntico, saiam e embocavam naquele objecto estratégico e já não saiam até ter uma morte lenta. Era uma cadeia com prisão perpétua, seguida de condenação à morte. Assim ficava com os terrenos menos infestados pela sua acção perniciosa.

Mais tarde, vim a saber que a comunidade científica lhe dá o nome universal de “talpa europaea”, que se alimenta de minhocas, vermes, larvas e sempre que possível de um ratito mais distraído, sempre na escuridão. Além da alimentação e da procriação, tem como trabalho diário construir complicados labirintos, com muitas galerias subterrâneas sob a terra lavrada.

Estou convencido que as toupeiras são felizes naquelas suas moradas e na procura de alimento para si e para os seus. Não querem misturas senão para acasalar. De resto, vivem sós, nada de más companhias, apenas as almas convenientes.

As toupeiras portuguesas são muito invejosas, não podem ver um pobre com uma camisa lavada, não querem ver funcionários a dar informações, segredos, documentos subterrâneos, a entregá-los na escuridão das noites de inverno e muito nevoeiro.

Também temos toupeiras bem instaladas nos habitats de todos os regimes e ameaçam outras que lhes querem conquistar o seu Paraíso Terreal.

Esses bichinhos de focinho pontiagudo, olhos semifechados, com unhas brancas e grandes, que nenhum estilista as consegue cortar, com um rabo difícil de entalar, com um corpo revestido de uma pelagem preta, vivem por todos os lados da nossa sociedade: nas habitações, nos clubes de futebol, nas empresas… Eles têm acesso às instituições públicas e privadas, a todas as galerias, com o trabalho diário de remexerem em papéis e nos computadores, pois estas toupeiras são modernas e bem informatizadas. São conhecidas pelos cientistas como as “toupeiras cibernautas”.

No tempo do meu saudoso Pai, havia sacholas e tubos de plástico para as diminuir. Nos tempos actuais, são necessárias centenas de togas, martelinhos bem afinados, pê jotas e inspectores-mineiros para descer às galerias.

Desconfio que as toupeiras estão de sobreaviso.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Março/2018

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