BISMULA – A MINHA ALDEIA

Em outros tempos, na minha Aldeia, na minha infância, quando a noite caia, as ruas quase se esvaziavam, e só os jovens adultos eram autorizados a percorrer a escuridão, enquanto lá longe, na cidade da Guarda, um clarão de luzinhas acendia e depois apagava-se. Nós, todas as Aldeias Arraianas, sem electricidade, sem caminhos transitáveis, sem água canalizada, sem esgotos, sem dinheiro, vivíamos das trocas – batatas ou cebolas por laranjas, cereais por louças castelhanas…

Havia a leitura das badaladas dos sinos, para decifrarmos as vantagens directas ao Povo. Repicavam três vezes os toques de Avé-Maria (manhã, meio-dia, e anoitecer). Todos rezávamos ou regressávamos a casa. Aos toques do mortório, juntava-se toda a Comunidade cheia de dor e luto, mas também de esperança e de recolhimento em fraternidade.

Quando havia fogos urbanos (eram raros e nas matas nunca existiam, porventura porque não havia os actuais interesses económicos), o som dos sinos era de arrebate e toda a população acudia no combate ao incêndio. Não precisavam dos bombeiros, que também não dispunham de vias para lá chegar. Vivia-se em interioridade profunda, uma espécie de coma social.

Hoje os sinos lá estão, resistindo ao vento frio que passa, mas já não há mãos, nem ouvintes. Hoje o que se faz ouvir é silêncio…silêncio.

Nas ruas só se vêem sombras de vento frio, árvores magras agitando-se contra os muros e trepadeiras em casas esventradas que lembram destroços da guerra. Muitas vezes, ao anoitecer, contavam-nos lendas de mouras prisioneiras ou gigantes sem nome. E quando numa esquina soavam vozes estranhas, nem bruxa ou exorcista as podia esconjurar.

Já não há as tabernas onde aos domingos se ajustavam contas contra um mau vizinho. Eram os locais privilegiados para vinganças familiares, pois havia álcool à mão para curar as feridas. Mas às vezes eram tão profundas que nem a Santa Bebiana, Padroeira dos Bêbados, lhes valia.

Os meus conterrâneos saíram, emigraram, foram-se os bebedores e com eles as tabernas e as  sombras noctívagas. Os campos estão abandonados e vazios, as noras roubadas, as azenhas derrubadas, as ribeiras e açudes com pouca água, fugiram os peixes, as aves ribeirinhas… Nem um tiro de caça se ouve.

Uma Igreja oitocentista, com rico Património, foi destruída na década de sessenta; o Marco Histórico, que traçava a fronteira entre a antiga Rasa e a Bismula, desapareceu sem se saber o seu destino, o mesmo aconteceu com as Pedras Centenárias do Mercado Mensal; o Tronco de pedra e madeira escondido no Caminho do Enxido, nem o Diabo o descobre; as Amoreiras e os seus Muros de Granito seculares, onde as nossas avós e mães amassavam o linho, foram ceifados; casas de habitação destroçadas.

Resistem ainda o Carvalho Grande, símbolo central do Brasão da Freguesia da Bismula, certas Alminhas, certos Muros, certos Cruzeiros…

Como era linda a Minha Querida Aldeia – Bismula, com ruas estreitas, os carros de bois carregadas de frutos da terra, o regresso das ceifeiras a cantar ao desafio, toda uma geografia humana que não constava no Mapa de Portugal. Da janela da nossa casa só via uma pequena parte, mas que me dava tudo o que importa: as Estrelas e a Lua Crescente. A neve e a chuva chegavam como nos versos de Eugénio Andrade: “O lume quase extinto das folhas/O Inverno ancorado pelos campos, a proliferação cega de sombra, a lama arrastando os seus tamancos.”

A Bismula, no Ano do Património, pouco ou nada tem para apresentar aos seus visitantes, ao lado de tantas outras aldeias com uma grande riqueza urbana, histórica, rural e religiosa.

Apesar de tudo, sei que a Bismula me tem na memória e também a levo no coração.

Termino com Fernando Pessoa: “se escrevo o que sinto, é porque assim diminuo a febre de sentir.”

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Março/2018

Bismula - A festa anual regressou às suas origens

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