Bismula – O último lavrador ancestral. 

Na Primavera de 1931 nasceu na Bismula José André Nunes, filho de Celestino Nunes Monteiro e de Alexandrina André. Naqueles tempos as famílias eram numerosas e esta não fugiu à regra geral, sendo constituída por cinco irmãos e duas irmãs.

 Marcado o nosso encontro, estamos na presença de um bom conversador, com uma memória invejável, recordando os muitos acontecimentos coletivos e individuais, principalmente da comunidade bismulense.

Frequentou a Escola Primária, tendo como Professora Maria Benedita Antunes Leal, que o preparou para fazer o exame da 3ª Classe em Vilar Maior, onde foi examinado por um júri escolar, fazendo parte a Professora Adélia Gata.

Com uma certa mágoa, diz que o seu pai não o deixou ir mais à escola, porque era necessário ir guardar “ uma apeada de ovelhas”. Com doze anos, já tinha à sua responsabilidade um rebanho, que levava para as pastagens mais pobres, pois as melhores estavam reservadas para os pastores mais antigos. Como se dizia na tropa “ a antiguidade é um posto”.

Já adulto frequentou o Curso de Adultos na Bismula, dirigido por José Maria Fernandes, e fez exame da 4ª classe na sede do concelho, entre os companheiros estavam Manuel Ferreiro de Ruivós, Bernardino Caramelo, João Alexandre Fonte, tantos outros…

Pela ação do saudoso Padre Ezequiel Augusto Marcos, Pároco da Bismula, que implementou a Ação Católica, foi membro da JAC (Juventude Agrária Católica). Nesta qualidade, em 1960, participou no Congresso Mundial da Juventude Agrária, em Lourdes na França. Ainda hoje canta o seu Hino, que valorizava o trabalho da ruralidade, os seus frutos. Vai ao baú das recordações e nos diversos documentos lá se encontra a marcha do Congresso, cuja música é do Padre Geada Pinto.

Nas atividades laborais, andou pelo Colégio da Cerdeira do Coa, por diversas aldeias do Concelho do Sabugal em trabalhos de carpintaria e construção civil. O pai já era carpinteiro, filho de peixe sabe nadar. Além do pai – Celestino Nunes André-, também desempenhavam esta tarefa César Sebastiana, Joaquim Lopes “ Tio Tamanqueiro “ e José Joaquim Fernandes. Faziam dornas, carros de bois, portas, janelas e muitos caixões (hoje esta palavra, cantada pelo imortal Amália, está em desuso – é mais fino e leve chamar-se urna).

Nunca saindo de Portugal, foi às sortes ao Sabugal, onde foi apurado para todo o serviço militar e seguiu destino para a Covilhã, alistado no Regimento de Caçadores nº 2, com a especialidade de atirador de infantaria durante quinze meses. Dos cinco irmãos, todos cumpriram serviço militar obrigatório e um deles, Teotónio Nunes André, para prestar uma comissão na India Portuguesa.

Sentia uma certa vocação para abraçar a carreira de enfermagem: “ eu sou médico de mim próprio, somos aquilo que comemos”. Fez exame em Castelo Branco, na Escola de Enfermagem, mas não obteve o ingresso tão desejado. Diz o povo que “quem não tem padrinhos morre mouro.”

Em termos sociais, foi Presidente da Casa do Povo da Bismula, cargo que não lhe deixou boas recordações.

Nunca quis enveredar por uma vida matrimonial: “quem casa não pensa e quem pensa não casa, eu sou um homem de pensamento logo nunca casei.”

De há uns anos, dedica-se de forma ancestral ao amanho da terra, já não é pastor nem carpinteiro, antes um agricultor que lavra com a força motriz de uma jumenta.

Falei-vos de um Homem, que no dia 3 de Novembro de 1957 foi minha testemunha de fé e meu padrinho do Crisma na Bismula (Sabugal), celebrado por D. Domingos da Silva Gonçalves.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

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