Passo uns dias na Zona da Bela Vista em Setúbal, um espaço geográfico composto pelos Bairros do Forte da Bela Vista, dos Amarelos, da Alameda das Palmeiras, do 2 de Abril e, claro, do Bairro da Bela Vista.

É um território múltiplo de cores, idiomas, etnias, afectos e desafectos, que às vezes salta para os jornais não pelos melhores motivos e muito por culpa do poder político. Há que vender o papel…

O grito madrugador das gaivotas faz-me saltar da cama para mais uma caminhada. Gosto de percorrer ruas, contactar e dialogar com as pessoas… Logo pela manhã a caminhada é sagrada.

Começo no Parque Verde da Bela Vista, um espaço convidativo a libertar a mente e a preparar o físico. No percurso cruzo-me com freixos, sobreiras e oliveiras com os frutos a despontar, pinheiros e flores silvestres.

A acompanhar os nossos passos o chilrear das aves, dos sons suaves das rolas aos mais sonoros dos corvos. Também as vozes de treinadores de futebol a exigir mais aplicação desportiva às equipas jovens.

No ponto mais alto ergue-se a Ermida de Santo António, a data da fundação é desconhecida mas foi restaurada pela Paróquia de Nossa Senhora da Conceição em 2006. Nas paredes há apelos ao santo casamenteiro. Dali observa-se uma paisagem única e deslumbrante. A norte, o Castelo da Ordem de Santiago de Palmela, o casario habitacional – uma ou outra casa a pedir novas tintas, a contrastar com os lotes de cores vivas (azul e rosa) -, e o depósito das Águas do Sado, a Mãe Água da Bela Vista… Em tempos passados, este bem essencial era comercializado pelo País.

A poente, a Serra da Arrábida e o Castelo de São Filipe. A sul, o Porto de Setúbal, gruas, navios mercantes de grande porte, o Estuário do Sado onde a água doce chega ao mar salgado, uma área estratégica onde se cruzaram muitas e diversas culturas com rotas à mistura. Quem nunca observou os pinguins e os grupos de golfinhos?

O Moinho da Maré das Mouriscas é um local de visita obrigatória, um refúgio de aves migratórias e aquáticas. Mas, a nascente, naqueles paradoxos que só as cidades conhecem, situa-se o pulmão industrial de Setúbal, guindastes, torres, chaminés, movimento, muitas fábricas, empresas… o mundo do operariado. Perto, os viveiros de aquicultura das ostras. Mais a nascente, os campos agrícolas de vinicultura.

O Parque Verde da Bela Vista disfruta de dois campos de futebol e outros tantos para diferentes actividades desportivas. Junto há um espaço de fisioterapia ao ar livre e um monumento dos Escuteiros de Portugal, que partiu de uma iniciativa da Junta Regional de Setúbal.

Nota-se algum vandalismo, derrubes das vedações dos espaços desportivos, desleixo em deixar no terreno objectos de plástico, excrementos de animais, muitas pedras soltas das calçadas… Um Calceteiro, com brio e muito trabalho, devolve-as ao sítio a que pertencem. Parece agir mais por carolice ou sentido estético do que por ordens de alguém responsável pela fiscalização.

Lemos a sinaléctica: “O MUSEU ESTÁ NA RUA – BELA VISTA”. Vale a pena calcorrear a pé os trilhos da arte urbana. São monumentos que respiram o ar livre: vemos logo o “Labirinto” e o “Cadmo”, em homenagem ao herói da mitologia grega, lendário fundador da cidade Tebas e introdutor do alfabeto fenício na Grécia. Este monumento situa-se à frente da Biblioteca Municipal de Setúbal – Polo da Bela Vista. Vemos o “Estendal”, em homenagem aos muitos entendais dos bairros, as “Asas”, o “Radar”, o “Casal Cigano”, um belíssimo tributo à comunidade cigana existente, “África”, o “Sol e a Lua”, “Tampas”, evocando o mundo subterrâneo que suporta as cidades, os cinco “Continentes” que apontam para a multiculturalidade e diversidade, uma imagem viva do Bairro da Bela Vista, a “Metamorfose”, o “Despertar” no Bairro do Forte da Bela Vista (na cimeira do monumento um galo) e, por último, o monumento “Sem Título”.

Na Avenida Belo Horizonte é obrigatório ver e admirar os nove graffitis gigantes nos costados dos prédios. Ali está retratado o Zé dos Gatos, uma figura típica e popular da cidade de Setúbal, que deveria receber uma condecoração do PAN, pois recolhia em sua casa todos os gatos que encontrava perdidos na rua. Seguem-se outros retratos magníficos: uma jovem sombreada por um cérebro masculino, uma pergunta milenar cuja resposta nem sempre é fácil (“Freedom, where are you?”), a “Primavera”, a “Boneca”, um gato em forma de balão com um cão suspenso, a “Utopia”… Se fosse Ministro da Educação criava um programa de “Cultura na Rua”, aulas vivas sem tectos nem paredes para todos os estudantes.

Do outro lado da avenida, está o “Plano – Sequência”, composto por um autocarro gasto de tantas viagens, com dezoito janelas de onde saem graffitis… Numa das janelas não podia faltar Bocage… Para onde irá o poeta num autocarro em ruínas?

Todo o Núcleo Museológico Urbano da Bela Vista é um projecto inovador de requalificação urbana que muito deve ao Escultor João Limpinho.

Passo pelo Polo da Cáritas Diocesana de Setúbal, que ajuda muitos residentes carenciados. Uma referência solidária numa cidade onde há grande exclusão social.

No final deste percurso, atravesso o mercado 2 de Junho e visito a loja do “PAI DO JOÃO – PRODUTOS REGIONAIS DA BEIRA BAIXA”, onde se podem comprar produtos beirões de grande qualidade, o que também enriquece a cidade.

Por fim, nada melhor para o caminhante retemperar forças do que uma refeição no Centro de Solidariedade Social de Nossa Senhora da Conceição em Setúbal.

António Alves Fernandes

Agosto/2018

Setúbal

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