Manhã muito fria no Fundão, a rondar os quatro graus negativos. Na estação da CP, nos tempos atuais REFER, entro para um dos últimos lugares da carruagem terceira e encontro um charco de água proveniente da casa de banho. O revisor tenta resolver o problema, mas nada acontece. O comboio apita, as carruagens apertam-se e sigo caminho.

Lá fora, aparece um contínuo nevoeiro, a lembrar o Encoberto, eterna figura da nossa história, poetizada por Fernando Pessoa e outros.

Viajo pelos textos que me apresenta a Revista Natal – 2014, um suplemento natalício do “Jornal do Fundão”. Leio poemas de Miguel Torga, António Salvado, Sophia de Mello Breyner, David Mourão Ferreira e a prosa de Nuno Francisco, Maria Antonieta Garcia, Manuel da Silva Ramos, Urbano Tavares Rodrigues e Pedro Silveira. Também fixo o meu olhar na página que anuncia uma Firma com sede na Aldeia de Joanes (Fundão), onde estão impressos votos de boas festas em várias línguas, e uma árvore de Natal constituída por fotografias de trabalhadores e trabalhadoras, um gesto muito oportuno e afetuoso. Na página do Jornal “ A Guarda” leio e medito na mensagem do Bispo da Diocese, com o título “ É Natal, Vivei a Alegria do Evangelho”. Estas leituras fazem esquecer por momentos o nevoeiro exterior que nem as margens do Rio Tejo deixam ver.

Em Castelo Branco entra um casal romeno de etnia cigana. A gritaria é tanta que todos aqueles que dormitam acordam sobressaltados, julgando tratar-se de um assalto de índios. Depressa os ânimos serenam e todos voltam ao ritmo normal: ler, conversar, pensar, dormir e ir à casa de banho.

Em menos de quatro horas já estou na Cidade do Rio Azul. As temperaturas estão baixas, só o bom vinho da Península de Setúbal e um fresco e apresentável peixe grelhado com batata-doce aquecem o ambiente.

Segue-se uma visita à nova catedral do consumo. No primeiro piso, os Escuteiros do Agrupamento nº 64 de S. José da Camarinha (do CNE) fazem embrulhos das compras de Natal e sempre arranjam uns trocos para as suas atividades. Ao lado, em frente às salas de cinema, observo estátuas de plástico de grandes figurões da sétima arte. No terceiro piso, vejo centenas de jovens a comer apressadamente refeições de plástico. Saio para uma varanda e admiro a cidade, o Rio Sado, o Castelo de Palmela e os jardins da escola básica nº14 da Azeda de Cima. Ainda lá estão, bem erguidas, as árvores que o meu saudoso Pai plantou há anos. O “contínuo hortelão e jardineiro“, como era conhecido por alguns, sentiria orgulho nas raízes dessas árvores, que ainda resistem à proliferação dos centros comerciais. Aprecio o crescimento dos ramos e lembro-me do meu Pai, quando ali colaborava nas liturgias dominicais ou jogava à bola com os netos na posição de guarda-redes.

Segue-se uma visita ao Museu do Trabalho, de Michel Giacometti, oportunidade para recordar duas figuras típicas e populares da cidade sadina: o Finuras e o Ervilhinha. Finuras, “um HOMEM muito grande que viveu num mundo pequeno”. Francisco Augusto da Silva (o Finuras) notabilizou-se no exercício de inúmeras profissões. Em 1969, no programa do ZIP-ZIP, disse que “era um operário especializado em trabalhos não especializados”. Também afirmava muitas vezes que “só devemos fazer as coisas que a gente gosta.” O Finuras, em Setúbal, gostou de ser serralheiro mecânico, nadador salvador, homem do mar, rei do carnaval setubalense (desfilando com pompa e circunstância em diversos corsos carnavalescos), toureiro, hipnotizador de leões, artista de Circo, praticante das ciências ocultas e um talentoso inventor – por exemplo, de uma velha máquina de lavar roupa criou um mecanismo para produzir patê de conservas. Entre fotografias, documentos, artefactos, ferramentas e objetos pessoais, ali se encontra a medalha de ouro que o Município lhe concedeu, e a velha e singular bicicleta com a alongada buzina.

Quanto ao Ervilhinha, “homem dos gelados”, todos se lembram do seu pregão na Praia da Figueirinha: “Já sabem que estou aqui! Chorem meninos e meninas! O Ervilhinha chegou!” Todas as crianças choravam, a praia virava pranto e os pais só tinham uma solução para sossegar os filhos: comprar os geladinhos ao Ervilhinha. Lá está o carrinho dos gelados no museu. Fora da estação estival, vendia pevides, amendoins e bolos em diversos locais da cidade,

A Rádio Azul aproveitou a frase “já sabem que eu estou aqui!” para abrir os seus programas radiofónicos.

Desço para a Casa do Bocage e encontro de forma inesperada o Padre Álvaro Teixeira, missionário claretiano com missões em S. Tomé e Angola, atualmente pároco da grande Comunidade do Coração de Maria. Acabara de ler no Setubalense a sua crónica de Natal, e felicitei-o pelo seu “Menino Jesus”, que bebe na fonte da Alegria e atravessa a ponte do Amor ao próximo.

Na Rua Edmound Bartissol, onde se encontra a Casa onde nasceu Bocage, o grande Poeta da Literatura, espreito uma breve exposição sob o tema “para além da glória – entre o troféu e a imagem”. São fotografias, taças e documentos do meu clube do coração: o Vitória de Setúbal.

Preparo-me para regressar ao meu abrigo, mas ouço na rua fados e guitarradas provenientes do Centro Cultural e de Solidariedade Social de Nossa Senhora da Conceição. Entro nessa casa e escuto durante uma hora gente maioritariamente reformada e idosa, mas de voz cativante e bons dedos para tocar o fado. Antes de sair, ainda trinco uma saborosa sandes de choco frito, alegrado por um vinho da Serra do Barril.

Caminho sem grandes planos pelas ruas e sou surpreendido por centenas e centenas de motards vestidos de pai natal, carregados de prendas que vão distribuir pelas crianças mais carenciadas dos Bairros periféricos. Lembro-me que uma em cada três crianças está no limiar da pobreza e que há onze mil e quinhentos casais desempregados, marido e mulher. Este desfile foi organizado pelo Moto Club de Setúbal e não evito recordar o Padre Motard José Fernando Lambelho, natural de Aldeia de Joanes (Fundão) e ali sepultado.

Parto para Lisboa onde vou assistir ao campeonato interno de futebol da TAP, disputado no Complexo Desportivo dessa companhia de aviação. Nenhum jogador ou treinador fez greve e, portante, apresentam-se em campo na máxima força. João Alves Fernandes, da Bismula (Sabugal), que foi um grande jogador, é atualmente o treinador da equipa Heliport. Joga e perde 4-6 contra a equipa da MATA (Manutenção de Motores Transportes Aéreos), fundada por Manuel Lourenço, de Forcalhos (Sabugal), que foi mecânico de motores de aviões e atualmente dirigente. As gentes do Concelho do Sabugal estão em toda a parte e desempenham importantes atividades profissionais sem perder o orgulho nas suas origens.

Vem aí um Novo Ano. Muitos comboios circularão com muitas carruagens e em muitas estações. Muitos destinos mudarão, mas continuarão a existir lugares de primeira e segunda classe…e a poça de água suja que sai da casa de banho.

DEUS SUPER OMNIA…

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Dezembro/2014

 

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