CASTELO BRANCO – UM HOMEM, CONTABILISTA, MISSIONÁRIO, PRISIONEIRO DE GUERRA

Decorria a década de oitenta do século passado, quando nos cruzámos e conhecemos no sistema prisional. Ele era Assistente Religioso do Estabelecimento Prisional de Castelo Branco.

Nasceu em S. Cosme (Gondomar), filho de um fiscal de Obras Públicas e saneamento, há quase oito dezenas de anos.

Na Escola Comercial de Gondomar, tirou o Curso de Contabilidade, indo trabalhar durante alguns meses no Tribunal do Trabalho do Porto. Mas depressa mudou, por razões salariais, para uma grande empresa de importação de madeiras, onde chegou a responsável máximo. Teve múltiplos contatos com os serviços alfandegários, pois muitos alteres de madeira tinham medidas diferentes das oficiais e sempre para menos.

Ligado à Juventude da Ação Católica no Porto, foi durante seis anos responsável por este movimento, sob a orientação dessa figura impar da Igreja Portuense e Portuguesa – D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto.

Um dia foi “ tocado “ por algo de sobrenatural, que não sabe explicar e abandonou essas atividades laborais. Seguiu-se um estágio de seis meses na Comunidade Redentorista em Vila Nova de Gaia. Iniciou, assim, um novo ciclo da sua vida. Partiu para Espanha, cidade de Valladolid, estadia que durou oito anos num curso de filosofia e teologia, no sonho de um dia ser missionário.

Regressou a Portugal e, antes da ordenação missionária, trabalhou na Comunidade Redentorista Lisbonense, dedicando-se ao Catecumenato e à frequência de aulas na Universidade Católica, à qual ainda emprestava o seu talento futebolístico como ponta-de-lança.

Em 1969, foi ordenado na Sé do Porto, por D. António Ferreira Gomes, que acabara de regressar do exílio. Em Janeiro de 1970, seguiu para Angola com diversas missões, entre elas, a gestão do Hospital Missionário do Vouga (Silva Porto – Bié), com quatrocentas camas.

O primeiro batismo na missão pastoral surgiu quando estava para realizar um casamento. Chegou o noivo, mas a noiva não havia meio de aparecer na porta fundeira da Igreja. Surgiram as mais diversas interrogações, quando a certo momento se ouviu um grande burburinho nessa porta. Pensou-se o pior, uma grande confusão com a comitiva da noiva, talvez arrependida, talvez zaragata com os familiares do noivo. Andava-se nestas conjeturas, quando vem na coxia principal um jovem a correr e a gritar: “Padre, vem depressa, noiva está a parir bebé”. O missionário, que tinha o Curso de Primeiros Socorros, foi de imediato com o material de enfermagem necessário para o local da parturiente, e fez do parto um enorme êxito. Pela única vez na vida, ajudou uma noiva a ser mãe no dia do casamento. Dessa nova vida, um lindo menino, viria mais tarde a ser padrinho de batismo.

Com o 25 de Abril e “ a exemplar descolonização”, deu-se a independência “às três pancadas” de Angola, o que resultou em momentos de muita dor, sofrimento e morte nos anos vindouros.

A Missão Redentorista situava-se em zona de predominância política da UNITA. O Presidente Savimbi visitava muitas vezes as instalações e o serviço hospitalar. O Hospital recebia todos os doentes, independentemente da sua cor política, embora os movimentos de libertação não se respeitassem e cometessem os mais vis atropelos. O Hospital chegou, por diversas vezes, a ser bombardeado, causando mortos e a destruição de algumas instalações.

Por razões que ainda hoje desconhece, foi preso com os seus companheiros missionários nativos. Enquanto estes foram diretos para a cadeia, ele foi recluso para a sede do bispado, onde era vigiado e não podia ausentar-se. Aí esteve seis meses. Em boa verdade, o seu “crime” era estar ao serviço das populações mais desfavorecidas de Angola, independentemente das ideologias de cada um.

Cansado e doente, regressou à Comunidade dos Redentoristas de Castelo Branco. Recuperado fisicamente e, atendendo ao seu perfil, foi nomeado assistente religioso junto dos reclusos da cidade albicastrense, para além dos seus serviços pastorais.

Foi nesse contexto que tive oportunidade de conhecer o padre missionário, dinâmico, humanista, sempre humorado, que se chama Ramiro dos Santos Ferreira.

Acima de celebrações litúrgicas, o Padre Ramiro privilegiava o contato com as pessoas, com os reclusos, criando um clima de confiança, altruísmo e amizade. Com os funcionários mantinha uma relação de bom entendimento, compreendendo quão difícil é a missão prisional; e aos visitantes nunca faltou com uma palavra amiga. Criou uma equipa e com ela desempenhou da melhor forma a missão que D. Augusto César- Bispo Diocesano- lhe atribuíra.

Não se cingia à celebração de missas nem à distribuição de santinhos ou à caridadezinha, mas preocupa-se sempre genuinamente com as diversas necessidades do homem recluso. Era necessário deitar a mão a soluções que resolvessem problemas familiares e sociais dos reclusos. Ele sentira na pele o que era estar preso. Em Angola passara por uma reclusão de seis meses, em condições bem difíceis.

Rapidamente conquistou a estima dos reclusos, comendo com eles no refeitório e partilhando os alimentos, um jogo de ténis de mesas, a entrega de um simples cigarro, uma palavra de otimismo e de reconversão.

Um dia teve de entregar os seus sapatos a um recluso foragido, com quem tinha feito uma aposta, que se fugisse da cadeia, os entregaria, nunca pensando que tal fato acontecesse. Mas, aconteceu…

Angariou também a estima e consideração dos funcionários, para os quais tinha sempre uma palavra de estímulo, nunca faltando o seu bom humor, o conto de uma anedota, sempre o lado positivo da vida.

São estes homens, em missão ao serviço de outros homens carenciados, que ficam na memória e serão para sempre recordados e saudados. A vida missionária do Padre Ramiro dos Santos Ferreira era tema para um livro com muitas páginas, muitas delas dolorosas. “ A minha vida é uma grande estória. “

Foi um privilégio tê-lo conhecido e partilhado algumas das preocupações que acompanham os homens da fé e da esperança. Bem-haja, Padre Ramiro.

 

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Janeiro/2014

 

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