CENAS FĂNEBRES
ViĂşva e octogenĂĄria, vivia sĂł num andar exĂguo e a precisar de obras, sem condiçþes de habitabilidade, com renda antiga, mas que lhe açambarcava a miserĂĄvel reforma.
Residia na Capital e, por paradoxal que pareça, paredes meias com ruas onde calcorreiam milhares de turistas vindos de muitos territórios. Hå atÊ quem escreva que Lisboa Ê a cidade com melhor turismo cosmopolita, mas na realidade esquece-se do pÊ descalço e do sem abrigo.
Muito ruĂdo, agitação, mas tambĂŠm muitas solidĂľes em lares onde tudo falta, principalmente o dom do afecto, da caridade e da amizade.
Os familiares, âquando o rei fazia anosâ, telefonavam a saber se ainda estava viva, alguns na esperança de vir a receber algum quinhĂŁo de uma herança sem sentido.
Um certo dia, alguĂŠm lhe tentou ligar, mas nĂŁo houve qualquer resposta. NĂŁo deu sinais de vida.
Nestas situaçþes o melhor ĂŠ chamar o INEM e a PolĂcia, que tĂŞm a competĂŞncia necessĂĄria para certo tipo de arrombamentos, para se saber, de facto, o que se passaria naquela residĂŞncia.
A imagem não podia ser mais triste. Deram com um corpo quase moribundo, tendo ainda sido transportado para o hospital, na esperança de salvamento. Não havia nada a fazer senão tratar do funeral.
Em vida manifestou, aos familiares mais próximos, dois desejos após a sua morte: ir para a campa da sua mãe e do marido, na terra natal, e ir descalça e vestida de branco. Esta vontade foi concretizada.
Chegada Ă sua aldeia, e dado que o funeral estava marcado para as quinze horas da tarde, debaixo de intenso calor, nĂŁo passou pela capela funerĂĄria e foi directa para a Igreja Matriz. Quase de seguida ali foi celebrada a Eucaristia Exequial.
Desta vez nĂŁo se verificou o habitual âformigueiroâ junto Ă Igreja, enquanto os familiares choram e mastigam as suas mĂĄgoas e enquanto decorrem as cerimĂłnias religiosas.
Noutros funerais observamos que aquele aglomerado de pessoas se entretĂŠm, na maior parte das vezes, a falar de âgajasâ, de futebol, de negĂłcios, de mercados, de polĂtica, da famĂlia, dos vizinhos, dos amigos, quem tem e quem nĂŁo tem, e atĂŠ se contam umas anedotas⌠Fala-se de tudo e nĂŁo se respeita o ânadaâ, o vazio deixado pela morte de alguĂŠm.
Assistimos muitas vezes tambĂŠm, durante o cortejo para o cemitĂŠrio, a um ambiente de feira e de âfolcloreâ onde o respeito por quem parte ĂŠ metido âna gavetaâ. Aconteceu, neste caso, que se chamou a atenção para o facto, mas a resposta foi dada em insultos e em expressĂľes de gozo: ninguĂŠm estĂĄ para receber liçþes de moral nem de boa educação. Esquecem-se que a Ăşltima morada ĂŠ igual para todos!
Hå dias um ministro da comunhão esperou algum tempo atÊ que se fizesse o silêncio adequado a uma cerimónia fúnebre, para levantar o corpo da capela funeråria e rezar as oraçþes adequadas à liturgia.
Neste funeral, o Celebrante cantou os cânticos e os salmos, com uma sonorização gregoriana que nos faz aproximar mais do divino. O coro dos presentes correspondeu: âa minha alma glorifica o Senhor porque olhou para a sua humilde Serva. Vinde em seu auxĂlio Santos do CĂŠu⌠Conduzam-na Anjos ao ParaĂso ⌠levai a sua alma Ă presença do Senhor. Dai-lhe Senhor o eterno descanso nos esplendores da Luz PerpĂŠtua.â
Ouvir mĂşsica desta espiritualidade num funeral, em minha modesta opiniĂŁo, ĂŠ prosseguir o caminho para a Ressurreição, que transborda vida abundante e jĂşbilo festivo. O canto litĂşrgico ajuda-nos a ressuscitar a alegria de todos os vestĂgios da morte.
TambĂŠm na homilia, o Celebrante convence a assembleia presente a acreditar ânas verdades eternas do Evangelho.â
Desta vez por lapso, e nĂŁo pela defunta ser pobre, esqueceu-se de dar os sentimentos aos familiares presentes, votos de pĂŞsames, de solidariedade e de caridade. Uma falha desculpĂĄvel, talvez pelos muitos afazeres paroquiaisâŚ
O itinerårio para o cemitÊrio, outrora passado pelo centro da aldeia, de hå tempos para cå vai por apertado caminho rural. Tem alguma explicação: Ê mais curta a viagem do defunto e hå mais facilidades de circulação para o trânsito.
O Celebrante a pĂŠ e com altifalante apropriado vai rezando os mistĂŠrios do rosĂĄrio a que felizmente ĂŠ correspondido.
Ao meu lado, vem um daqueles que tem medo que a Igreja lhe caia em cima e, jĂĄ com uns âbranquinhosâ bem bebidos, diz-me que faz um grande sacrifĂcio em vir a funerais. Felizmente nĂŁo vai ao dele, vai nele.
Um casal de namorados, mal sente o toque a defuntos, esconde-se detrĂĄs de uma oliveira com centenas de anos, encaixada num muro de pedra.
O Sacristão Ê portador da Cruz e, com a campainha funeråria na EN18, faz sinal aos automobilistas para abrandar a velocidade. Um jovem automobilista, acompanhado pelo Deus Baco, quase atropela os acompanhantes do carro funerårio. Um teste de alcoolÊmia e ficava sem carta de condução.
A este cidadĂŁo nĂŁo lhe causou estranheza a Cruz, nem arranjou uma birra como a daquele mĂŠdico e professor da UBI, que contestou a reposição desse sĂmbolo numa instituição que jĂĄ fora Convento e que faz parte do patrimĂłnio covilhanense.
Com este horĂĄrio fĂşnebre, sĂł os muito saudĂĄveis, reformados e familiares com disponibilidade, tiveram oportunidade de estar presentes, expressos numa vintena. Pobre na vida, pobre no funeral.
Os familiares, apesar dos pedidos escritos e orais, lĂĄ tiveram que pagar as taxas de ocupação efĂŠmera do espaço religioso e a abertura da campa. Graças a Deus, tiveram um pequeno desconto⌠Felizmente hĂĄ quem pratique a caridade⌠Termino com uma frase bem conhecida: âaos pobres nĂŁo se lhes perdoa a pobrezaâ.
AntĂłnio Alves Fernandes
Aldeia de Joanes
Junho/2019