CONDEIXA-A-NOVA – O ENTRUDO OU O CARNAVAL

A primeira palavra que soletrei nos bancos da minha Escola Primária foi Entrudo. O Professor ensinava-nos que era três dias antes da Quaresma e variava de aldeia para aldeia. As pessoas com roupas velhas ou extravagantes chamavam-se Entrudos. As nossas Mães aperaltavam as mesas da cozinha para saborearmos os buchos e as boas chouriças caseiras com a hortaliça que os nossos campos nos davam. Só mais tarde se globalizou a palavra Carnaval, palavra de origem latina que significa “adeus à carne”.

Hoje fui convocado para participar no Desfile Carnavalesco em Condeixa-a-Nova, integrado em grupos, cada um com seu fato carnavalesco: Capuchinhos Vermelhos, Avós, Caçadores, Abelhas Maias, Joaninhas, Pierrots… Foram mais de cem participantes das Irmãs Hospitaleiras da Casa Rainha Santa Isabel.

Acompanhavam o meu grupo quatro senhoras em cadeiras de rodas. Uma delas, de bonitos cabelos brancos, disse-me: “nós já fomos como estas crianças, agora somos meninas com as nossas teimosias.”

Juntaram-se a nós centenas de crianças de Escolas Básicas, de Centros Educativos e da Santa Casa da Misericórdia. A organização é da Câmara Municipal e do ATL Fernando Namora.

Ainda o sol estava a nascer e já chegavam os sons de bombos e dos chocalheiros de Trás-os-Montes. Chocalheiros que iam à frente das crianças e nós atrás do tractor da Instituição.

Passámos pela Estátua de Bronze de S. Bento Menni, inaugurada no Centenário do seu Nascimento, UM CORAÇÃO SEM FRONTEIRAS, da autoria do famoso escultor Alves André de Cantanhede. Aí compreendemos a missão universal do Centro Hospitaleiro: distribuir amor, em primeiro lugar ao doente ou necessitado, mensagem que contamina todos os funcionários desta casa.

Com o apoio da G.N.R., a música Portuguesa afasta o samba brasileiro e deparámos com a Praça da República, onde admirámos casas nobres e fidalgas, Igrejas e espaços com História.

Seguimos o trajecto carnavalesco pela Rua Francisco Lemos, agruparam-se as centenas de crianças, muito bem organizadas, cada uma vestida ao seu gosto: noivas, camponesas, pastores, fardas de todos os ofícios… sem qualquer material bélico. Atravessámos a Rua Lopo Vaz e espantou-nos a belíssima Igreja.

Desfilámos numa “passarela” e fomos recebidos pelo Senhor Presidente da Câmara de Condeixa-a-Nova Nuno Moita e pela Vereadora da Cultura Liliana Pimentel. Sem sinais exteriores de máscaras, elogiaram as nossas indumentárias carnavalescas, todos os anos diferentes, graças às mãos habilidosas e carinhosas das Funcionárias da Casa de Saúde da Rainha Isabel, e recebemos um diploma de participação. Das mãos das nossos “monitoras” recebemos também uma embalagem de bolachas e uma garrafa de água.

Regressámos ao som de guitarra, a fim de chegarmos ao nosso destino provisório. Diante de nós olhámos sem medo o Tribunal, mascarados somos todos inocentes.

Continuámos pela Rua Manuel Ramalho, Casa do Gás, Estátua Padre Dr. João Antunes, Cantinho dos Petiscos do Céu, não os escolhia em troca da gastronomia da Casa de Saúde Santa Isabel.

Apreciámos laranjais, olivais, centenários pinheiros escandinavos, e retribuímos os afectos que saltavam das janelas, das varandas e das esplanadas.

Chegámos ao Parque dos Silvais, avizinhava-se o Campo Municipal e a Nossa Casa de Recolhimento. O meu par, ex-utente desta casa, disse-me que nunca falta a este Desfile e que muita gente que trabalha nos Hospitais devia fazer aqui um estágio de alguns meses para aprender a lidar com estes doentes.

Esta manhã não choveu mas o Sol esteve meio escondido. O quarto de lua desaparece com os aviões que atravessam o firmamento.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Fevereiro/2018

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