Estamos no meio da semana de Abril. À chegada à Guarda, na primeira rotunda do G, um nevoeiro cerrado e um ambiente frio lembram um cenário puramente londrino.

Na hora do almoço, o companheiro de mesa, quadro superior da segurança social, conta as suas odisseias como dirigente sindical. Narra as inúmeras perseguições e ameaças das hierarquias do patronato, por travar uma luta sem tréguas na defesa dos direitos dos trabalhadores. Hoje aguarda que chegue o dia da sua aposentação, porque está cansado e desmotivado, profissionalmente falando.

Num restaurante ao lado, um cartaz indica os vários preços das ementas, incluindo o “menu da crise” com pão da troika, por sinal o preço mais baixo no elenco gastronómico. Não perguntem se o “menu da crise” é vantajoso, pura e simplesmente não sei se a qualidade e a quantidade no prato compensam o módico preço a pagar.

Passo junto ao enigmático Seminário Conciliar, quando os sinos da Misericórdia emitem sons que reclamam atenção, mesmo aos indiferentes.

Paro perto das portas do templo e vejo imensos jovens com rosas brancas na mão. Cruzo-me com duas jovens adolescentes, lindas como o sol, e pergunto-lhes o que aconteceu. Com muita emoção, respondem-me em uníssono que faleceu um jovem de 16 anos, seu colega de escola. “De acidente?”, pergunto eu. “Não, suicidou-se”. Também com emoção, dirijo-lhes palavras de fé, esperança e com olhares para o futuro.

A verdade é que ninguém se mata sozinho. Alguém me conta que a vítima vivia numa “família distorcida”, os pais divorciados. O jovem habitava com um irmão junto da mãe e o irmão mais velho optara por ficar com o pai. Era grande a instabilidade familiar, tão evidente e cruel que teve de ser o poder judicial a decidir a forma como o rapaz iria para o eterno repouso, no cemitério local.

John Mike da Silva, jovem, meu irmão, descansa em Paz, na convivência dos deuses.

Caminho na direção do Hospital Sousa Martins. À sua entrada, encontramos a estátua deste médico, patrono do Hospital com o seu nome. À sua volta, pessoas, muitas flores, placas, estatuetas, imagens, mensagens com pedidos para o sobrenatural, cena idêntica a tantas assistidas no Campo Santana em Lisboa.

Mais à frente, um pinheiro escandinavo, secular, partido ao meio, luta por morrer de pé como todas as árvores. No chão, espalham-se os destroços, os ramos partidos, os estilhaços de folhas, cenário de uma guerra sem tréguas que um forte vento venceu. Ninguém consegue tirar dali aqueles restos lenhosos. Será necessário um requerimento ao Governo da Nação?

No 2ºPiso, Sala 5, Cama 18, Serviço de Ortopedia, somos recebidos pelo Padre Ezequiel Augusto Marcos com muita empatia. Nos seus olhos há felicidade, no rosto sorrisos, apesar das dores que o incomodam. São assim os homens fortes.

Saio daquela Unidade Hospitalar, com um conterrâneo e cicerone, conhecedor profundo da cidade da Guarda.

A nossa caminhada é longa e tem o seu alfa na Catedral. Ali, chama-me a atenção a parte virada para nascente, uma figura que faz o escoamento das águas do terraço. O conhecedor pergunta-me o que representa. Analiso e digo-lhe que representa uma figura humana com o traseiro virado para nós. “É verdade o que dizes, está a cagar para os castelhanos, tem o cu virado para Espanha”. Gosto de saber que a figura não caga em nós e admiro os portugueses dos tempos medievais.

Descemos e observamos uma Janela de estilo Manuelino. Entramos na Igreja de S. Vicente com dourados altares e grande património de quadros em azulejos. Gosto de ver o S. Vicente, com um livro aberto e um corvo, muito parecido com a imagem da Igreja de Aldeia de Joanes, padroeiro da Irmandade.

Entramos na Judiaria e vem ao nosso pensamento: “foi um dos maiores erros da política portuguesa a expulsão dos judeus”. Saíram daqui para enriquecer outros países.   

Antes de chegarmos às Portas do Sol, uma das entradas medievais da cidade egitaniense, ainda passamos ao lado da Casa das Meninas – Poço do Gado-, onde se exerce a profissão mais antiga do mundo.

Segue-se uma visita à Casa Véritas para tomar conhecimento das novidades religiosas em termos livrescos. Pousamos os nossos olhares sobre temas que versam o Concílio Vaticano II, vários Papas, com maior incidência nas figuras do Papa Francisco, Francisco de Assis, Padre Pio e tantos outros. Os preços dos livros, queimam nas nossas bolsas.

A caminhada citadina chega ao ómega, na esperança de um local desconhecido que espera por nós.

Descendo a zona cordilheira que abraça a Serra da Estrela, regresso de um território diocesano que deu ao País e ao Mundo centenas e centenas de servidores do Evangelho de Jesus Cristo. Liga-se o rádio e ouço que vamos importar padres do Brasil e de Angola.

Os padres do Brasil vão ter muito sucesso nas comunidades cristãs portuguesas, sempre falam a língua de uma forma mais suave e adocicada…Pobre País, Pobre Europa.

 

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Abril/2013

Som: Crónica de um dia na Egitânia

 

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