Já lá vão oito anos. O tempo passa como um cavalo galopante, como lebre à frente de caçadores. Passa mais depressa que a corrida de burros que se fazia na minha Bismula, desde o campo de futebol dos Fiéis de Deus até ao Largo da Santa Bárbara. Era uma questão de fé chegar primeiro. O Povo divertia-se e o asno sofria…

Em 2008, o meu Irmão Ezequiel Alves Fernandes, depois de algumas vicissitudes desnecessárias, apresentou o seu livro “Pater Familias” na nossa terra natal, já uma segunda edição. A primeira voou e ainda bem, pois cada livro leva o coração generoso do meu Pai.

Com um estatuto profissional de “permanentemente ao serviço”, dispunha de pouco tempo para leituras e muito menos para escritas. Estava ocupado na resolução de problemas de muitos seres humanos.

Na apresentação, contavam-se várias pessoas do Povo que ainda conheceram o meu saudoso Pai, algumas autoridades municipais e eclesiásticas, jornalistas e curiosos.

O Jornalista Rui Meirinho do “Cinco Quinas” apreciou o texto que li, pediu-me uma cópia e incentivou-me a escrever crónicas. Desde essa data nunca mais parei, e assim será até a saúde me permitir, até que a alma me doa. Eça de Queiroz, agora saneado do Ensino Secundário, escrevia infinitamente melhor do que eu: “A crónica é como que a conversa íntima, insolente, desleixada, do jornal com os que o lêem: conta mil coisas, sem sistema, sem nexo; espalha-se livremente pela natureza, pela vida, pela literatura, pela cidade; fala das festas, dos bailes, dos teatros, das ondas, dos enfeites; fala em tudo, baixinho, como se faz ao serão, ao braseiro, ou ainda de Verão, no campo, quando o ar está triste.”

Fico feliz por saber que muitos leitores me seguem, leitores que considero entre os meus amigos mais estimados. Uns apreciam, outros discordam, uns dizem que escrevo demais, outros fazem críticas construtivas e, alguns, poucos, envergonham-se de me ler. Para todos escrevo com igual dedicação, já não estou em idade de escrever outra coisa que não seja a verdade mais crua e da forma menos estilizada possível. Quando vestimos demasiado a verdade estamos perto da mentira. Estar neste momento cronicando… só o devo aos meus pacientes, carinhosos e assíduos leitores.

A minha crónica é uma autobiografia povoada das mais diversas humanidades, pessoas, tradições, costumes, notícias, pequenas e grandes vivências. O livro “O NOSSO HOMEM” é um tributo a todos os Homens e Mulheres que conheci até à data. O médico ortopedista Júlio Carvalho do Porto diz-me: “se escreveste sobre tantos Homens e Mulheres, colocar na capa O NOSSO HOMEM sabe a pouco.” Talvez… Segundo um gramático latino de século III d.C., “os livros têm um destino, percorrendo várias memórias e vários territórios”, e a escritora Margaret Atwood dizia que “publicar um livro é como colocar uma mensagem dentro de uma garrafa e atirá-la para o mar.” Nunca sabemos quando, onde e por quem será lida e que interpretação lhe dará.

Esgotado entre a Aldeia de Joanes e a Casa do Concelho do Sabugal em Lisboa, já não foi necessário percorrer os caminhos tortuosos da minha aldeia natal. A apresentação do Livro na Bismula foi rejeitada porque o meu Amor a essa aldeia me obrigou a denunciar algumas injustiças. O edil não conseguiu ler mais nada e devolveu-me o livro “rasgado”, não viu os muitos textos afectivos dedicados aos sítios e às gentes do meu berço natal. A cegueira venceu, pelo menos temporariamente, pois como diz Platão “a razão e o valor sempre se acabarão por impor à injustiça e à ingratidão”.

Para terminar a crónica, o meu amigo e poeta Miguel Santos escreveu-me: “Amigo Fernandes, transportas dentro de ti a humildade dos bons, dos homens que caminham descalços ao lado dos que sofrem, seguras a mão dos que precisam de força para viver, alimentando a alma dos que precisam de comer para sonhar. Quando te vejo ao longe a sorrir, no meio dos que sofrem, sei que a tua vida está repleta de amor, de coragem e de virtude de viver. Danças na Lua no meio dos teus meninos, que são Homens grandes, escreves com o Sol, e descansas num Mar imenso, o Mar da tua bondade, meu Amigo Fernandes.”

Lá vou cronicando na Barca, num rio onde se juntam mil e um afluentes, até que os remos ou as varas se partam.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Agosto/2018

 

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