Faleceu a tia Madalena Jesus Santos

Ao ler o título, muitos dirão que todos os dias morrem pessoas: familiares, amigos, conhecidos. Assim é, caros leitores, para morrer basta estar vivo.
Aconteceu numa das freguesias do Concelho do Fundão. Ao entrar na Capela Funerária, um espaço com muita dignidade, vejo cerca de cinquenta pessoas, a maioria em pé em redor do féretro. Desperta em mim a atenção de um jovem (neto da defunta e estudante universitário) que dá início à recitação do terço. De seguida, chegam os funcionários da funerária, um deles faz a encomendação da alma. O celebrante eclesiástico não se desloca ao local, e o acompanhamento fúnebre segue para a Igreja Paroquial, ali a dois passos, onde vai celebrar-se a Eucaristia Exequial. Isto de “ fazer funerais” também dá trabalho e é uma chatice.
No altar espera-nos um jovem sacerdote, acolitado por um colega idoso, antigo pároco. O Jovem Universitário dirige os cânticos litúrgicos adaptados ao momento e faz a primeira leitura. Muitas vezes a música religiosa liberta-nos.
O celebrante, em poucas palavras, salienta que todas as despedidas são dolorosas. A fé não é como um seguro que cobre todos os riscos. É necessário tê-la e praticá-la. O neto universitário – Mário Folgado de Oliveira e Silva -, antes de partir para o cemitério, lê uma significativa mensagem, que me apetece citar na íntegra, que todos devemos meditar, porque vale por mil sermões.
“O funeral é por excelência a hora de agradecer a Deus. Mais do que agradecer pelo que pudemos dar, é o momento primordial e verdadeiro para agradecer tudo aquilo que recebemos. A família com os amigos e conterrâneos em oração, querem agradecer a Deus os momentos, os exemplos, a dedicação e a vida de Madalena de Jesus dos Santos.
Na verdade, ela nunca precisou de saber ler um livro para ser sábia, ela nunca precisou de saber contar para saber o que faltava a cada um para ser feliz, ela nunca escreveu, mas ensinou-nos a todos a aprender, ela nunca soube filosofia, mas nunca perguntou o porquê das coisas, apenas fez a paz e o amor e viu que isso era bom.
Oitenta e seis anos de vida não se podem resumir na palavra gratidão, seria pouco o alcance desta palavra. para quem sempre lutou para viver e para fazer os outros viver. Muitas filhas, muitos netos e bisnetos, muita família que ela nunca esqueceu, na sua pobreza sempre os reconheceu, e no seu amor sempre os receberam.
Ser avó é ser mãe duas vezes, ser avó é ser mãe dócil, dócil porque foi mãe sem dores de parto, avó dedicada, mãe que socorria todos os que tinham fome, ensinando que mais valia passar fome que passar a vida no egoísmo e não saber partilhar o pouco que se tem. Ela nunca teve muito, o pouco que tinha, sempre foi a mesa posta, o presente do Natal, a mão de ajuda.
Foi Senhora das Dores, trinta anos de viuvez, seis filhas e tantos netos e bisnetos para criar, foi deixando para ela própria o sofrer. Quanto mais sofria, mais queria viver, quanto menos tinha, mais estendia as mãos para ajudar. “ Lembra-te ó Pai como era frágil o barro com que me fizeste”, e ó Pai, o barro que tu nos deste, desfez-se. Daqui a cem anos poucos se lembraram desta mulher, mas seguramente daqui a cem anos todos serão um bocadinho dela. Hoje, fazem sentido as palavras do poeta Arnaldo Santos, quando dizia “ hoje sei que as sereias do lago/Te uniam ao luto enorme que choravam/de um povo inteiro sepultado”, na verdade esta família é esse Povo que em luto deixa sepultar parte de si, os seios que nos amamentaram, as mãos que nos ajudaram, o sorriso que nos fez felizes.
Este Povo reclama-te a saudade, ao olharmos para ti vemos um corpo vazio, desprendido da vida, que à semelhança do sepulcro vazio de Jesus espera a Ressurreição.
Neste momento, cabe-nos agradecer a Deus pelo que recebemos de ti, contigo aprendemos tudo para que lutando na vida aprendamos a ser felizes. Aquilo que eras é a chama que vive em nós, neste último encontro só uma certeza nos guia, sobre a terra que te há-de cobrir, sobre a lápide sobre ti desce, dois anjos eternamente de joelhos continuar-te-ão a adorar, um desses anjos, chama-se Saudade, o outro chama-se Bem-Haja!”
Mais palavra para quê? Num silêncio religioso todos caminham para o cemitério local, respeitando a dor dos familiares. Paz à sua alma.

António Alves Fernandes
Aldeia de Joanes
Novembro/2014

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