1. Celebramos hoje a festa anual da Liga dos Servos de Jesus quando entramos no ano comemorativo do cinquentenário da morte do Fundador, o Servo de Deus D. João de Oliveira Matos. Em dois mil e doze completa-se este cinquentenário a que queremos dar o relevo que ele nos merece. Sobretudo queremos que ele seja a oportunidade bem aproveitada para regressarmos às fontes e a partir delas, podermos relançar o carisma da nossa Liga, na fidelidade às orientações do Fundador e também às novas circunstâncias em que se enquadra hoje a vida da Igreja.
É no desejo de contribuir para iniciarmos bem esta preparação do cinquentenário da morte do Fundador que procurarei agora mesmo trazer à memória de todos algumas das instruções que estiveram na origem da Liga dos Servos de Jesus.
Como sempre acontece, a Festa da Liga, por tradição e orientação estatutária, coincide com o aniversário do falecimento do Sr. D. João e, ao mesmo tempo, remete-nos para a figura de S. João Baptista, na celebração litúrgica do seu martírio.

2. É por aqui que desejamos começar. O martírio de S. João Baptista é resultado do seu amor à verdade, da sua fidelidade incondicional a Deus e à missão que este lhe confiou. Figuras de referência para nós como é João Baptista, mas também são os profetas, como Jeremias, de que nos fala a I leitura dizem-nos que há uma escolha que temos de saber fazer. Essa escolha é entre o que nos aconselharam os nossos gostos, os nossos interesses e até a nossa segurança pessoal, por um lado e o que Deus efectivamente nos pede, por outro. Não tenhamos ilusões: a verdadeira segurança e mesmo o autêntico conforto pessoal só os temos se escolhermos a vontade de Deus a nosso respeito, mesmo que isto nos custe. É isso o que nos quer dizer o profeta Jeremias, ao insistir – “não temas diante deles, senão serei eu que te farei temer a sua presença”. É do lado do Senhor e do cumprimento da sua vontade que também nós nos queremos colocar sempre, mesmo sabendo que, por vezes, teremos de pagar factura elevada, como aconteceu com João Baptista. E cada um e cada uma de nós é chamado a fazer esta escolha num mundo em que se vive permanentemente em jogos de interesses. Jogos de interesses onde muitas vezes as pessoas não hesitam em sacrificar a verdade e até as suas convicções mais profundas e autênticas para manterem situações de bem estar pessoal e aquilo que julgaram ser as suas seguranças, ainda que assentes em pés de barro, portanto sem consistência. Todos passamos pela tentação de sacrificarmos a verdade e a fidelidade à nossa vocação, trocando-as por cantos de sereias que de facto nos convidam à vida fácil e ao comodismo de quem se instala e recusa escutar a voz do Senhor que constantemente nos diz – “não tenhas medo, faz-te ao largo”.
S. João Baptista é para nós hoje exemplo de quem venceu a tentação, escolheu a fidelidade ao Senhor até às últimas consequências, mesmo sabendo que pagaria uma factura elevada. Essa factura foi o martírio.

3. Hoje, todos nós e a Liga dos Servos de Jesus continuamos confrontados com a urgência de escolher entre por um lado a voz da Sereia que nos indica o caminho do comodismo e da instalação ou outro a voz do Senhor que continua a dizer-nos – “não tenhas medo, faz-te ao largo”.Esta escolha é inevitável e desejamos que não só este dia de festa mas também todo o ano em que vamos viver a preparação do cinquentenário da morte do Servo de Deus D. João de Oliveira Mato nos dêem coragem para fazermos bem esta escolha. Ora, essa escolha, para ser bem feita, tem de ter em conta algumas pautas de decisão e de comportamentos que o mesmo Sr. D. João sublinhou desde a origem.
Assim uma delas é cultivarmos o mesmo espírito de observação e de discernimento que o levou, no decorrer das Visitas pastorais que fazia, ao reconhecimento de “muitos homens e mulheres com invulgar grandeza moral a ponto de poderem ser considerados verdadeiros jardins de virtude.” Não podemos considerar-nos a nós próprios o centro do mundo, nem julgarmo-nos de tal maneira insubstituíveis que depois de nós só pode vir o vazio.
A nossa atitude tem de ser outra, ajuda mesmo que cultivava o Fundador da Liga quando pensou em reunir “o maior número possível de almas apaixonadas de Jesus que pudessem substituir a reparação que em Portugal se fazia quando havia as Ordens Religiosas.” Não podemos esquecer que a Fundação da Liga aconteceu nos tempos subsequentes à implantação da República, que completou o vazio de Ordens Religiosas em Portugal.
O que está em causa na mente do Fundador é contribuir para a revitalização das comunidades cristãs, para a purificação e aprofundamento da Fé com consequências na santificação do mundo e de todas as pessoas no meio do mundo.
Hoje, em linguagem conciliar e a este propósito desejo lembrar que no próximo ano juntamente com o cinquentenário da morte do Sr. D. João desejamos celebrar condignamente os 50 anos do início do Concílio Vaticano II – falamos na animação cristã das realidades temporais.
D. João de Oliveira Matos usou a linguagem da tradição da época, quando, dirigindo-se ao grupo dos Fundadores da Liga, lhe disse: “Minhas Senhoras é preciso que Jesus volte a reinar em Portugal, na Diocese, na nossa terra, na nossa família e primeiro que tudo no nosso coração”.
Por isso convém não esquecermos como é que ele define a finalidade da Liga dos Servos de Jesus. Essa finalidade é “santificação pessoal, depois contribuir para a santificação dos que andam longe de Deus, depois ainda desagravar a Nosso Senhor de tantos crimes que se têm praticado e continuam a praticar em Portugal, reparando e fazendo apostolado em todos os campos de acção. Estes são os mesmos objectivos da Igreja, ao serviço da qual o Sr. D. João quis que todos os servos da Igreja se colocassem incondicionalmente. Por isso, insiste em recomendar às Senhoras que participaram no retiro da Fundação: “Todas as obras feitas com este fim terão por guia o Pároco de cada localidade e por chefe o nosso Ex.mo Prelado, a quem se deve dar conta de todas as iniciativas”. E é bom não esquecer o que ele pediu às Fundadoras e hoje continua a ser pedido a todos os membros da Liga. Dizia: “Eu não me importo de ter muitas associadas; o que desejo é tê-las que queiram ser santas e trabalhem para santificar os outros”. E para clarificar as razões e as motivações que devem estar sempre presentes nas escolhas e no comportamento dos membros da Liga, insiste primeiro na liberdade com que se adere a esta associação, mas logo a seguir na responsabilidade que se exige aos que aderem. E para sublinhar esta responsabilidade, o Sr. D. João clarifica, logo no início, “se vir que mesmo alguma ou algumas das inscritas não desempenham o fim que a Obra se propõe, eu passo um traço sobre o seu nome sem me importar que digam que o Bispo é incivil ou intratável”.
É esta sem dúvida, uma das posições mais firmes e rigorosas que o Senhor D. João assumiu no processo de Fundação da Liga que nós não queremos deitar no rol dos esquecidos, mas assumir como interpelação à forma como estamos a viver o nosso carisma na Igreja e no mundo de hoje.
Certamente que nenhum nem nenhuma de nós quer ver o seu nome riscado, como dizia o Sr. D. João, no livro da Liga dos Servos de Jesus.
Para que isso não aconteça vamos trabalhar, sobretudo ao longo deste ano duplamente jubilar, para que a nossa Liga seja, hoje e segundo a vontade do Fundador, “para unir todas as almas que na Diocese desejem aperfeiçoar-se espiritualmente e trabalhar na santificação do próximo”.
Que o Servo de Deus, Sr. D. João de Oliveira Matos, lá do Céu onde certamente se encontra, a todos nos acompanhe no esforço que queremos fazer para, sobretudo ao longo deste próximo ano, ajudarmos a Liga a reencontrar-se com o seu verdadeiro e autêntico carisma.
Por isso e tendo em conta o que acaba de ser lembrado sobre as notas características das intenções do Fundador, desejo deixar duas pistas de reflexão para nos acompanharem ao longo de todo este ano jubilar:

1ª) Que queremos das nossas comunidades da Liga dos servos de Jesus e que testemunho do nosso carisma elas estão realmente a dar?

2ª) A iniciativa recentemente tomada de criar uma comunidade em terras de missão ad gentes como está a ser assumida por todos os membros da Liga e que caminhos de renovação queremos que ele inspire às outras comunidades e também aos servos externos?

E agora peço a todos os presentes uma especial oração ao Senhor para que a santidade do Sr. D. João seja, em breve, formalmente reconhecida pela Igreja através da sua beatificação e canonização, cujo processo está em curso e em fase adiantada.

+Manuel da Rocha Felício; Bispo da Guarda

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