Fogo ou atentado?

Estava tranquilamente a assistir às marchas populares no Pelourinho covilhanense, quando recebo um SMS de alerta: “fogo de grandes proporções na zona do Cabril. Há mortes confirmadas”.
Contactei imediatamente o meu colega da equipa de Castelo Branco que me faz um relato cheio de amargura. Mas a nossa missão é garantir o serviço de abastecimento e efetivamente, nesse campo, já haveriam aldeias, isoladas, e sem água.

O fogo estava furioso. De um simples incendio em Escalos, uma mão furiosa empurrou-o para todo o lado criando um rasto de destruição e morte.
No meio de tanta turbulência também foram os cabos de energia e de comunicações, levando a que os sistemas elevatórios de transporte de água ficassem inoperacionais.
Vou a correr para casa e ligo a TV, no sentido de poder avaliar a gravidade da situação. Normalmente, nestas situações, a comunicação social não perde a oportunidade. Porem, para meu espanto, o futuro do Cristiano Ronaldo e a sua situação fiscal era o tema de debate em todos os canais informativos. Até que finalmente lá surge em rodapé um “Ultima Hora” confirmando a existência do fogo, em Pedrogão Grande, e que provavelmente poderiam ter ocorrido mortes.

A mensagem rodava e rodava no écran da minha televisão, mas sempre com a bola de cristal da imagem do nosso futebolista que, como todos nós, deveria também sentir a curiosidade de saber o drama daquelas gentes do Pinhal Interior de Portugal.
Finalmente surge um direto com o nosso Secretário de Estado, mostrando a expressão que todos temiam. Vi um homem simples, impotente e frustrado. Não escondeu a realidade. Foi objetivo tal como um médico quando tem de nos dar uma triste notícia.
De repente caio em mim. No dia anterior estive na zona e o termómetro do carro chegou a bater nos 50ºC. Este ano hidrológico, que começou no passado 1 de outubro e terminará a 30 de setembro, por enquanto, muita pouca água nos trouxe. O calor que se tem feito sentir leva a humidade que nos resta e a pobre da floresta, já abandonada pela emigração da gente nova, não tem como sobreviver.

Fui recebendo relatos das equipas no terreno. As comunicações falhavam constantemente mas mesmo assim, com o recurso do SMS, lá ia entendendo como foi possível garantir que o serviço não entrasse em colapso.
Na realidade, mesmo com todo este risco, a coordenação das operações, pela Proteção Civil Nacional, foi eficaz. Rapidamente nos forneceram geradores de emergência, onde não havia, para restabelecer a energia nas infraestruturas afetadas.
Aos poucos, atras das chamas, a situação ia-se gradualmente normalizando mas as notícias iam-me deixando cada vez mais preocupado. De Pedrogão Grande o fogo já estava em Castanheira de Pera e queria continuar. Não haviam meios nem ninguém que lhe fizesse frente.

Resolvo então ir para o Cabril. O abastecimento de água aquela região depende desta infraestrutura.
Já com a luz do dia, ao chegar a Proença-a-Nova, começo a sentir o negro e o cheiro das cinzas. Tal como um crematório, aquele rasto de pó cinzento acaba mesmo por me obrigar a ligar o limpa para brisas, equipamento ironicamente usado para remover as gotas de chuva que caiem.
Continuo o meu percurso no IC8, até ao Cabril. A chegada a Pedrogão Grande foi arrepiante. O céu estava negro, o cheiro a queimado, o ruido de dor, a chuva de lágrimas.
Tenho de me recompor e vou para a estação de tratamento, bem lá no cimo. Ainda vejo que o fogo tentou lá chegar mas aí os bombeiros foram os heróis.
Mal passo o portão vejo uma fila de autotanques a abastecerem-se. As expressões dos bombeiros eram estáticas, de um silêncio interior onde guardavam o choro. Por vezes tinham de regressar porque deixavam algo para trás. A cabeça estava estourada e o cansaço já os controlava.

A responsável pela instalação também transmitia preocupação. O abastecimento aos bombeiros estava a comprometer o serviço aos sete concelhos que esta instalação serve. Efetivamente foram metros cúbicos infindáveis para matar este flagelo.
A missão da minha equipa era aumentar a capacidade de transporte da captação na Albufeira do Cabril. A tarefa não era fácil. As bombas estavam no limite e uma avaria poderia ser fatal: a água não chegar nem para bombeiros nem para a população que lutava por si contra as malvadas chamas.
Sem comunicações subiu-se e desceu-se a encosta, vezes sem conta, a tentar o impossível. Foi necessário colocar o equipamento ainda para além do limite, mas com alguma margem de segurança. Pensou-se, discutiu-se e decidiu-se.

O caudal foi aumentado sabendo no entanto o risco: pegar ou largar!
Chego a casa no fim daquele domingo negro. Vejo a televisão e saio logo da sala. Nem queria ouvir. Aquele fogo continuava a correr como um cavalo furioso ou como um touro enraivecido. Já estava às portas de Cernache de Bonjardim, no concelho da Sertã.

Lembrei-me dos cenários de guerra das trincheiras, do fogo, mas de artilharia. O arco tinha partido de Pedrogão Grande, foi andando, andando e queria mesmo chegar ao ponto de partida.
A esta hora ainda não sei o desfecho. Mas só peço a Deus que, pelo menos, este inimigo não consiga o seu objetivo.
Nestas tragédias sem dúvida que “atentado” ou “fogo” é praticamente o mesmo. Os inocentes, os esquecidos, os ignorados, os anónimos são sempre as vítimas.

António José Alçada
António Alves Fernandes
16/06/2017

António Alves Fernandes

António Alves Fernandes

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