FOMOS A TANCOS

No pensamento de muitos dos leitores estará porventura a ideia de irmos, qual Indiana Jones, à procura de “armas perdidas”.

Esta história interminável de salteadores arrependidos, a grande maioria figurões deste país, a sofrer de fortes amnésias, de esquecimentos profundos, é digna de constar nos melhores guiões de Hollywood. A realidade mais uma vez consegue superar a ficção.

Também nos valeram os militares do Tio Sam para nos alertar daquilo que nos desapareceu debaixo dos próprios pés e na frente dos narizes. Inacreditável!

Felizmente nem só de armas vive Tancos. Nada melhor para afogar tais mágoas do que a leal gastronomia portuguesa.

A lampreia já viveu melhores dias. Com diversas passagens vedadas, entretanto construídas, acabou por fugir do Tejo, que se encontra demasiado “humanizado”. Das lampreias selvagens ao aviário das lampreias, à moda francesa, foi um pequeno passo. Mas nem sempre o saber nos evita o prazer. Assim, por essas mãos que não enganam dos cozinheiros do afamado restaurante Almourol, francesas, portuguesas, castelhanas, galegas, rendem-se às magníficas lampreias diante das cores manchadas do Tejo.

Esta viagem na linha do Tejo, felizmente nas antigas carruagens do regional, com paragens por todas as estações e apeadeiros, num transporte amigo do ambiente, ao som de acordeão de onde saem músicas da Beira Baixa, criou e proporcionou momentos inesquecíveis.

Na parte final do repasto tivemos a visita de um companheiro de trabalho, Arlindo Marques, um ambientalista que tem dado o corpo às balas em defesa do Rio Tejo e que nos sensibilizou para estas causas tão importantes para o futuro do Planeta Terra. Para se salvar o Planeta é necessário tomar medidas drásticas.

Notou-se neste companheiro uma dedicação voluntária às causas da sua terra e do seu rio, que no fundo devem ser as causas de todos nós.

Depois do almoço subimos e atravessamos numa barcaça o Tejo para o Ilhéu do Castelo do Almourol, insígnia da Arma de Engenharia, que durante mais de dois anos usei com muito orgulho no meu fardamento de combatente.

Chegámos sem qualquer incidente e, para não destoar, os canhões deste Castelo há muito que também desapareceram, nem o Gualdim Pais sabe o seu destino.

Esta nossa guarnição, constituída por alguns novos e velhos guardas prisionais, e este Nosso Homem que já foi director, não encontraram as encantadoras mouras, possivelmente fugidias e escondidas na outra margem, junto à povoação do Arrepiado. Talvez arrepiadas, mas não arrependidas!

Esta “peregrinação” gastronómica e cultural já vai na quarta edição. A primeira e a última em Tancos, em Vila Velha de Rodão (Foz do Cobrão) e em Belver.

Para nos dar uma opinião sobre estes eventos culturais e gastronómicos registámos os seguintes depoimentos:

Manuel da Cruz Martins Caldeira Miguéns (Castelo Branco): “é um encontro dos novos e velhos guardas, daqueles que se dedicaram e dedicam em prol do serviço prisional. Vim aos quatro encontros e serve para sairmos das pressões diárias, principalmente aqueles que ainda estão em funções.”

Moisés Santos (Covilhã): “é uma feliz ideia. São reencontros importantes, depois de estarmos muitos anos juntos nos serviços prisionais.”

Joaquim Barata (Covilhã): “É bonito ver os mais velhos guardas com os mais novos elementos, numa simbiose perfeita. É um encontro maravilhoso de gerações.”

José João Correia Batista (Castelo Branco): “neste mundo anormal, é uma felicidade juntarmo-nos. Há necessidade de se verificarem mais adesões.”

Victor Dias (Castelo Branco/Nisa): “Oportunidade de reencontro com companheiros de trabalho, que não se vêem há anos. Vivemos numa sociedade muito egoísta, a só pensar em si, e aqui conversamos, convivemos, falamos de todos os assuntos. É pena não aderirem mais companheiros, dado que este evento é muito bem preparado e elaborado.”

José Alberto Morais Guerra (Covilhã/Fundão): “é a segunda vez que participo, que faço esta rota da lampreia. Realço a verdadeira camaradagem entre os diversos companheiros do serviço prisional da Covilhã e Castelo Branco. São importantes, revemo-nos e alicerçamos ainda mais a nossa amizade. Eventos a ter continuidade.”

Já era noite cerrada quando cada um de nós chegou a casa, esperando voltar a Tancos no próximo ano, na esperança de encontrar um Rio Tejo mais limpo e menos poluído, com lampreias portuguesas e uma moura para converter.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Abril/2019

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