FUNDÃO – CLUBE DE LEITORES

O mês de Outubro, na reunião mensal do Clube de Leitores do Fundão, foi decidido lembrar o escritor José Saramago, português residente em Espanha, em face dos 20 anos que recebeu o Premio Nobel da Literatura, pese embora, houvesse algumas hesitações sobre qual a obra que deveria ser objeto de análise e debate.

Ainda se ventilou a hipótese de ser o “Memorial do Convento”, na realidade o livro que o “lançou” como escritor, mas a decisão recaiu sobre a obra que o notabilizou, ou seja, “Ensaio sobre a Cegueira”, tendo-se marcado o dia 23 de Novembro, para a tertúlia dos leitores fundanenses. Foi apelado pela equipa que coordena o Clube de Leitores para que todos, e todas, lessem a obra propondo mesmo que fossem tiradas notas e ideias do autor, que enriquecessem o tão desejado debate.

Chegado o dia 23, o grupo como habitualmente junta-se na Biblioteca Eugénio de Andrade, ressalvando-se uma maior participação com cerca de meia centena de leitores, que comprovaram o interesse pelo autor, pela obra, ou por ambos.

Tratando-se do nosso Nobel da Literatura, a organização promoveu uma agradável surpresa. O debate iria decorrer no Convento de Nossa Senhora do Seixo do Fundão, recentemente recuperado como espaço de hotelaria e lazer, que em tempos pertenceu à freguesia de Aldeia de Joanes. Mesmo não se discutindo o “Memorial do Convento” sem dúvida que o espaço tinha todas as condições para que a tertúlia literária fosse profícua e, acima de tudo, promovesse um bom momento de cultura aos presentes.

Mesmo sendo hoje um espaço muito agradável e turístico, não deixa de ser um convento, local onde normalmente se procura o retiro espiritual, mas acabou-se por dissertar sobre um ensaio sobre a cegueira. Efetivamente encontrou-se um espaço que tem o melhor ambiente para abrir os olhos do mundo que nos rodeia.

O Convento de Nossa Senhora do Seixo, antigo local de culto religioso, hoje está recuperado, pese embora uns longos anos de abandono, de pilhagens e de destruição. Só não arrancaram as pedras ao histórico edifício franciscano porque era impossível.

Todos ficaram fascinados pela obra de reabilitação, do que foi possível, com muita harmonia, bom gosto, iluminação e mobiliário. Além da beleza da decoração, mantendo as linhas da arquitetura original, notou-se uma simpatia invulgar e a amabilidade dos funcionários.

No espaço da antiga igreja decorreu a tão desejada reunião moderada, como habitualmente, pelo escritor Manuel da Silva Ramos, com o apoio da Diretora da Biblioteca Municipal. O Moderador iniciou os trabalhos questionando os presentes que teriam lido a obra em discussão, mas na verdade, o número era muito reduzido, embora alguns tivessem conseguido ler pela segunda vez e outros não passaram das primeiras páginas.

Cada um dos que tiveram o privilégio acabaram por ter “um tempo de antena” acabando por não surgir a tão desejada tertúlia, com debate de ideias ou pontos de vista. Na realidade falou-se, historiou-se as personagens, “num mundo de cegos, onde quem tem olho é rei”, aliás bem dito pelo povo, salientando-se a miséria humana, a escravatura, ou até o cão que guia os homens, e o extraordinário papel da mulher de um médico, que praticamente durante a estória é a única que vê. Sendo um livro intemporal, dá o retrato de como uma sociedade facilmente colapsa, aliás lembrando alguns filmes de Hollywood, como acabou por acontecer com esta obra que serviu de argumento a uma produção cinematográfica, infelizmente, pouco elogiada pela critica.

Talvez por isso houve leitores que mencionaram que a obra, “Ensaio sobre a Cegueira” tem das cenas mais violentas escritas por autores portugueses. Com tanta violência escrita, houve mesmo comentários que não haveria paciência para ler este tipo de literatura, havendo mesmo opiniões, tal como aconteceu, que este livro de Saramago tem os “ingredientes” para guiões de filmes do Hollywood, onde há terramotos, vulcões, miséria, onde a estrutura social deixa de funcionar, e o HOMEM é obrigado a sobreviver a todo o custo até que aparece no fim o Herói, o milagre e a moral que normalmente, Saramago, tanto criticou e ignorou.

Mesmo a produção cinematográfica do “Ensaio sobre a Cegueira”, com atores de renome como Julianne Moore e a brasileira Alice Braga, não passou da porta de entrada com audiências muito abaixo do esperado.

A sessão decorreu passivamente, numa permissividade de concordâncias, muita unanimidade de opiniões, faltando ali a “pimenta” do contraditório e da tertúlia, acabando mesmo por lembrar as aulas do liceu onde os bons alunos tentam-se destacar por uma melhor classificação.

Faltou mesmo dizer que uma obra com moral, porque demonstra ao leitor de uma forma realista até onde a maldade, ganância e os escrúpulos podem chegar, curiosamente escrita por um ateu convicto, que lamentavelmente nunca entendeu a diferença entre a Igreja e a Religião, acabou mesmo, no próprio enredo, descrever passagens despropositadas, com imagens de Santos com olhos vendados procurando, sem fundamento, criticar Deus como se ignorasse aquilo que nós humanos fazemos de mal, ou até de bem.

No momento presente não há pior “cegueira” que os média que nos rodeiam com notícias infundadas, entrando diariamente em casa, levando-nos a pensar no impensável, destacando a toda a hora a miséria, a desgraça alheia, como uma sombra deste ensaio sobre a cegueira.

A obra de Saramago é vasta (19 romances, 4 crónicas, 5 argumentos para peças teatrais, 3 contos, 3 livros de poemas, 1 livro de viagens, 2 livros infantis e 3 livros de memórias) contando muito, para esta panóplia literária, com o apoio incondicional da Editorial Caminho, que publicou grande parte da sua obra.

Muitos escritores se referem negativamente à obra de Saramago, como António Lobo Antunes, considerando a sua escrita uma porcaria da pior qualidade, e como pessoa, vivendo sempre mesmo principescamente apesar da sua ideologia o condenar.

Segundo Fernando Da Costa, o sucesso internacional de Saramago, que lhe abriu as portas do Premio Nobel, se deveu totalmente à atual viúva, conseguindo edições dos seus livros no mercado ibero-americano, com cerca de 600 milhões de pessoas.

Concluindo, a literatura de Saramago pelo seu passado, e conduta de vida, não se deve levar muito a sério…pese embora o mérito de ter sido Premio Nobel.

António Alves Fernandes/António José Alçada

Aldeia de Joanes

Novembro/2018

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