Fundão – Dois centenário memoráveis

Um dos meus sobrinhos, ainda criança, tinha muito orgulho no avô paterno de idade muito avançada, mas com um grande espírito jovem. Informava o avô: “ já disse aos meus amigos da escola que o avô vai viver até aos cem anos e vamos fazer uma grande festa.” O avô, de olhar enternecedor, lá o esclareceu: “sabes que nós não somos os donos da vida, ela pertence a Deus, e se a velhinhos vão chegando alguns, como é o meu caso, dessa etapa é que ninguém passa.”

Infelizmente o avô nunca chegou aos cem anos, o número mágico na cabeça da criança e porventura o número imaginário que mais celebramos.

No Fundão, há um século, fundou-se o Seminário Menor e nasceu um dos mais conceituados jornalistas portugueses – António Paulouro-, o fundador temerário do “Jornal do Fundão”. Dois acontecimentos da maior relevância para a cidade do Fundão, que a projetaram em todo o País e nos destinos de acolhimento de muitos emigrantes. É, pois, de inteira justiça a homenagem nacional que vai decorrer no Fundão, dia 7 de Novembro, na celebração dos cem anos do nascimento de António Paulouro. Personalidades da política, das letras e da cultura compõem uma Comissão de Honra à sua memória viva e activa. Nas palavras do ensaísta e filósofo Eduardo Lourenço, que marcará presença no Fundão, “António Paulouro é um MILAGRE DE PERSISTÊNCIA, CORAGEM E PROFUNDO AMOR À TERRA.”

Já em relação ao centenário do Seminário, tenho o lamentar o silêncio absoluto e o esquecimento total: nem uma palavra, nem uma notícia, nem uma nota de rodapé. Hoje procuro remediar essa lacuna.

Estávamos nos primeiros anos do regime republicano, que tomou várias medidas repressivas e perseguição à Igreja, tais como a expulsão de Ordens Religiosas, o encerramento de Seminários e Igrejas, o saque do património sacro-cultural, a “caça” ao clero, entre outras tropelias. 

Com o encerramento compulsivo do Seminário da Guarda, os responsáveis da Diocese, com grande coragem e muito cuidado, procuraram uma localidade onde pudessem, quase na clandestinidade e com apoio da comunidade, dar continuidade à formação dos jovens seminaristas. Foram determinantes o D. José Alves Matos – Bispo da Diocese da Guarda -, o Padre António Santos Carreto, o Dr. Manuel Mendes da Conceição Santos e o Padre José Moreira Pinto, que escolheram a Vila do Fundão para levar a cabo a sua missão. Assim, a 16 de Outubro de 1915, instalaram-se numa residência alugada na Rua João Pinto Ribeiro.

As aulas, para vinte e quatro alunos, eram dadas nas casas do Dr. José Alves Monteiro, na Rua da Cale, e do Dr. Celestino Monteiro, a residir junto ao Jardim Municipal.

Dadas as persistentes perseguições aos seminaristas, muitas famílias fundanenses receberam em suas casas grupos de jovens, a quem que davam dormida e comida. Famílias corajosas, essas que não podem ser esquecidas e que também foram sujeitas a represálias.

As leis da República não reconheciam os seminários, pelo que teve de lhes ser atribuído o nome de Internato, uma forma de despistar as autoridades. Na sua direcção estavam o Cónego Manuel Mendes da Conceição, a residir na Guarda, e os Padres António dos Santos Carreto e Hilário Afonso Pires.

Durante três anos, os ataques sucederam-se: ameaças, tentativas de expulsão e perseguições. O ambiente só ficou aliviado com o Governo de Sidónio Pais e com as posteriores alterações politicas que se seguiram. Um novo rumo, um novo caminho se abria para a Igreja.

Os seminaristas libertam-se da semi-clandestinidade e instalaram-se na Casa da Fábrica, à saída sul do Fundão, na EN nº18, na direcção de Castelo Branco.

Em Outubro de 1934, foi inaugurado o atual edifício, perto da Freguesia das Donas, num terreno doado pelo Dr. António Pinto Meireles Barriga.

A Instituição Seminário tem a linda idade de cem anos e propiciou, durante este longo tempo, a centenas e centenas de jovens que não tinham meios económicos, uma integral formação académica, cultural e humana, independentemente do caminho que depois escolheram. Todos conhecemos pessoas – no mundo das Letras, das Artes, do Jornalismo, da Medicina, da Política ou do Direito -, que frequentaram o Seminário do Fundão, não esquecendo os sacerdotes que se dedicaram e se dedicam às mais diversas missões pastorais, sociais e humanas.

Com a falta de alunos, crise das vocações religiosas e, mais recentemente, com os acontecimentos lamentáveis que todos sabem, esta casa foi-se esvaziando. No entanto, seria bom recordar que este lugar, agora vazio, foi um dia a casa fraterna e humana de muitos e muitos jovens, que de outra forma teriam morrido de fome física, espiritual, cultural, e visto o seu futuro hipotecado. Não creio que as entidades responsáveis, a sociedade civil se esqueçam que o Seminário do Fundão tem um século.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Outubro/2015

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