Fundão – Militar – Advogado – Professor – Autarca – Governador Civil

Nasceu há décadas na Freguesia de Santar, concelho de Nelas, filho de abastados lavradores e produtores de um dos melhores vinhos de Portugal (a marca Dão), mas também de bom azeite e produtos hortícolas.

Ingressou na Universidade de Coimbra, onde frequentou a Faculdade de Direito. Não era uma Universidade do ”trouxe e mouche”, do faz de conta. Pelo contrário, era transmitido um ensino universitário muito sério e exigente.

Não esquece esses tempos maravilhosos da Velha Academia, os tempos de capa e batina, das repúblicas, que agora querem extinguir, daquele ambiente de contestação, de uma Associação Académica forte e com carácter político.

Com as suas ideias “subversivas”, foi incorporado no serviço militar obrigatório na Escola Prática de Infantaria em Mafra, onde frequentou durante seis meses o curso de cadete. Colocado como aspirante miliciano em Évora, depressa foi mobilizado para a Guiné, integrando o Batalhão de Infantaria 1912.

Seguiu via marítima, no navio Uíge, na companhia de mais de quinhentos militares em condições muito precárias. Não esperava encontrar nem viver um cenário de guerra, mas por lá militou. Alferes Miliciano, comandou um pelotão de infantaria.

Recorda algumas localidades ornamentadas com várias filas de arame farpado: Varela, Susana, uma bela praia num teatro de guerra, S. Domingos, outras que é melhor esquecer.

Com mais de dois anos de comissão militar, viu morrer em combate dois alferes milicianos, um furriel e seis soldados. Muita gente jovem, irmãos de guerra, perdeu aí sua vida.

São momentos dolorosos que nos confrontam com os nossos medos. É também um forte sentimento de orfandade que nos assola.

Tem recordações da camaradagem, da solidariedade e da amizade entre todos os militares. Regressou feliz, porque veio inteiro e vivo, sem mazelas.

Instalou-se de malas e bagagens no Fundão. Aqui iniciou a vida familiar, nascendo dois filhos.

No caminho profissional, escolheu a advocacia, que suspendeu para se dedicar ao ensino de economia, direito, vias comerciais e políticas na Escola Secundária do Fundão, tarefa que exerceu durante doze anos. Uma experiência muito positiva, pois ainda se respeitavam os professores.

Encontrou, nesse meio escolar, uma janela aberta contra o conservadorismo. Estava à sua frente o Diretor Dr. Júlio Gouveia Ferreira. Numa votação secreta, levada a cabo por todos os professores – com trinta e cinco votos a favor e uma abstenção-, deram-lhe o sim para continuar a desempenhar esse cargo a seguir ao 25 de Abril.

Fecha-se um ciclo e abre-se uma nova etapa – a política. Começou na presidência fundanense de Pinto Castelo Branco, onde já desempenhava as funções de vereador.

Mais tarde, com a dissolvência da Câmara Municipal do Fundão – caso único no País-, foram marcadas eleições. Concorreu pelo Partido Socialista, embora solicitando aos órgãos dirigentes a sua colocação em terceira posição nas listas, seguindo de férias com a família para o Algarve.

Recebeu um telefonema de António Guterres, que lhe pedia para ser o número um da lista; depois de algumas conversações, aceitou essa alteração: “A minha vida autarca todos a conhecem, sei que devia ter feito mais, mas é importante referir que não tinha juristas nem economistas, nem ninguém que fizesse um projeto”.

Ao fim de mandato e meio, foi nomeado Governador Civil de Castelo Branco, cargo que exerceu durante seis anos: “Na minha opinião, este cargo distinguia-se por permitir estar sempre próximo das populações, não vivia encerrado no gabinete; como delegado do governo, inteirava-me das necessidades e preocupações das populações, visitando todas as instituições”.

José Sampaio Lopes, conversador nato, é um manancial de histórias militares, jurídicas, docentes e políticas. Poucas pessoas terão tido uma vida tão completa e plena de peripécias.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Junho/2015

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