FUNDÃO – OS PAINÉIS DO MILAGRE

“O bem supremo e a cousa mais importante é a cultura em todas as dimensões.”

Friedrich Schlegel

Os trabalhos em azulejos sempre me fascinaram e ao nosso lado temos autênticas obras primas da arte de azulejaria.

No Fundão, na sua Igreja Matriz, logo à entrada, temos o espaço da pia baptismal forrada com azulejos, lembrando o Baptismo de Jesus Cristo. Porém, os meus olhos não se cansam de admirar o painel em arco, que invocam o Nascimento do Menino, a Última Ceia e a Crucificação do Senhor. Na Igreja do Castelejo, com a frontaria forrada em azulejos, observamos um painel de Santo António, com o milagre da mula, que se ajoelha perante a Hóstia Sagrada, Nossa Senhora da Silva, padroeira da paróquia e da Sagrada Família. Também no Seminário Menor do Fundão há seis painéis de azulejaria com temática campestre, agrícola, dignos de ser protegidos e visitados.

Há outros edifícios onde passamos centenas de vezes e não nos apercebemos da sua riqueza na Arte da Azulejaria. Estou a referir-me concretamente aos azulejos da autoria de Jorge Colaço, na Escola das Tílias no Fundão. Uma Escola recordada por meus familiares, que ali concretizaram o seu exame da 4ª Classe, dando um passo importante para a vida do trabalho.

Ali me desloquei com a colaboração do Professor José Saraiva Gavinhos e da simpática auxiliar Estefânia Anunciação Mendes, a primeira menina nascida na maternidade do Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Alpedrinha, actualmente lar.

Na zona envolvente recordei o extinto Quartel dos Bombeiros Voluntários do Fundão, no recomposto e agradável espaço envolvente à Capela Seiscentista de S. Francisco de Assis, com a imagem de como o homem destrói a natureza alheio à mensagem do seu Protector e mais abaixo o Parque das Tílias.

Ali encontra-se a Escola das Tílias construída em 1936, uma arquitetura em granito envolvendo o Parque com o mesmo nome da autoria do arquitecto Eurico Salles Viana. Esta Escola Primária não tem nada a ver com a arquitectura escolar do Estado Novo. Foge completamente às regras da maioria dos edifícios escolares de ensino básico. É uma monumentalidade de beleza granítica.

A enriquecê-la tem no seu átrio um conjunto de painéis de azulejos, da autoria de um dos mais prestigiados nomes da azulejaria portuguesa, o pintor e ceramista Jorge Colaço, com decorações em Londres, Genebra, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Buenos Aires, Cuba e Uruguai. Constituem um escasso património fundanense, que felizmente já se encontra protegido, a merecer uma classificação patrimonial com dignidade.

In loco, observei que o pintor e ceramista obedeceu ao nacionalismo vigente da época. No átrio temos o painel sobre a Restauração Nacional, que as gentes fundanenses comemoram com tanto entusiasmo pelas ruas da cidade. Num outro painel o Descobrimento do Brasil, agora alguns têm vergonha de se construir um Museu das Descobertas. O esquecimento está outra vez a vencer a memória. Ali encontramos figuras míticas dos descobridores, dos missionários, em que não são esquecidas as figuras dos Índios, também eles fazem parte da História.

Na obra de arte de Jorge Colaço, admiramos a riqueza do desenho, a expressão plástica dos acontecimentos, expressões épicas dominadas pelo azul do mar. Junto aos painéis o símbolo da portugalidade, o escudo da bandeira nacional.

Na parede lateral da Escola das Tílias, observando os inúmeros automobilistas, transeuntes que passam distraídos, alheios a este tesouro, figura um painel em azulejaria, na minha óptica a representatividade de um cesto com flores.

Muitos anos ao abandono, hoje estão protegidos, graças aos esforços de alguém que ainda premeia a cultura. São os azulejos do milagre. Foi um milagre os vândalos não os terem destruído.

São oportunas as palavras de Pedro Salvado: “os azulejos conservados no espaço fundanense fazem parte desse plural patrimonial da comunidade.”

Também o fadista Carlos do Carmo nos canta: “azulejos da cidade/numa parede ou num banco/são ladrilhadas da saudade/vestida de azul e branco.”

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Outubro/2018

Comentários

Comentários