Numa tarde fria, chuvosa e ventosa chegou a notícia da morte do Padre Alberto da Fonseca Lopes, natural de Fiães (Trancoso) e residente na única Comunidade Missionária do Espírito Santo na Diocese da Guarda, que se situa na parte mais antiga do Fundão.

A Congregação dos Missionários do Espírito Santos não me é estranha. Em 1958, na Gráfica de Gouveia, ajudava a colocar endereços a milhares de assinantes do Jornal Mensal “ A Ação Missionária”. Graças a estes Missionários, assistimos algumas vezes a filmes em bobines gigantes, provenientes de África.

Este missionário, que permaneceu dezassete anos na Comunidade Fundanense, celebrava todos os dias a Eucaristia na Capela da mais antiga valência da Santa Casa da Misericórdia do Fundão em atividade. Em 1913, esta foi Albergue dos Inválidos do Trabalho e em 1942 foi entregue à Santa Casa da Misericórdia do Fundão, funcionando até aos dias de hoje como Lar de Idosos.`

Na celebração da Eucaristia, estava-se na presença de um missionário que apesar da sua avançada idade, da sua débil saúde, respirava espiritualidade e crença. As suas homilias eram rápidas, eficientes e elucidativas das leituras do Evangelho, como me dizia alguém que ali cumpre com regularidade as suas obrigações de cristão.

Foi neste cenário que surgiu a minha amizade com o Padre Alberto da Fonseca Lopes. À sua presença, levei muitas vezes o meu conterrâneo Padre Manuel Joaquim Martins para uma interessante co-celebração. No final, havia sempre ocasião para uma troca de impressões diversas.

No Natal, numa das minhas últimas conversas, manifestei-lhe o desejo de fazer uma crónica sobre a sua pessoa, as suas atividades missionárias, a estadia no Fundão e a sua terra Fiães. Seria um viveiro de vivências sacerdotais e missionárias, de quem teve muitos companheiros de estudo na Escola Apostólica de Cristo Rei em Gouveia. Olhou para mim e com um sorriso no rosto disse: “ deixe passar este tempo de frio e chuva e na Primavera falaremos…” Talvez, um dia na eternidade, encontremos essa Primavera e retomemos a nossa conversa.

Desloquei-me à Igreja Matriz do Fundão para proceder à sua despedida e lhe prestar uma última homenagem, assistindo à Eucaristia fúnebre.

Não se contavam cem presenças, entre elas, um ou outro utente do Lar. Ao meu lado, sentou-se um homem visivelmente doente e perguntei-lhe porque estava presente. Respondeu-me: “ Era meu amigo.”

A presidir à cerimónia, o Pároco do Fundão salientou que “esta é uma ação de graças”, agradecendo ao irmão Padre Alberto e pedindo a misericórdia e recompensa divina.

Na homilia, fez uma reflexão sobre o contexto da morte, que não nunca faz parte da nossa agenda.

O Padre Alberto partiu para essa vida eterna em plenitude. Desempenhou na comunidade do Fundão durante dezassete anos uma missão importante junto dos mais idosos. A transmissão dos dons de Deus aos outros fez parte do seu ministério sacerdotal. Longo e diverso foi o seu percurso: em África, passando por missões em Angola; na América do Sul, onde esteve no Brasil (Rio de Janeiro) como Vigário Geral da Congregação; e na América do Norte, com trabalhos de evangelização no Canadá.

À despedida, à saída da Igreja Matriz, olhei para a faixa amarelada que cai do arco ogival. Em letras garrafais pergunta-se: “ QUE IGREJA SOMOS?” Fiquei sem resposta, ao verificar os poucos que participaram na última (às vezes única) homenagem a um missionário que deu a vida ao serviço dos outros, servindo uma comunidade durante dezassete anos.

Afinal “QUE IGREJA SOMOS”?

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Fevereiro/2014

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