FUNERAIS  INÉDITOS

Já assistiu a muitas cenas fúnebres. Ainda criança, na sua aldeia natal arraiana, via quase todos os dias, principalmente no Verão, muitas mães despedirem-se dos seus meninos por falta de condições médicas. Eram terras pintadas de preto onde a mera sobrevivência parecia um capricho de Deus. Carrega na memória os gritos lancinantes de irmãos, de órfãos, de viúvos, de mães que deram à luz a morte.

À noite acendiam-se tochas de solidariedade, dor partilhada e religiosidade. Lá estava grande parte da comunidade, rezando e sufragando a alma dos que partiam. O negro era a cor predominante nas almas daquelas gentes. A Fome era – como hoje- uma realidade terrível, e a distribuição de pão durante as exéquias constituía para muitos a único forma de reconfortar o estômago. Não há tragédia maior do que desejar a morte de alguém para poder comer.

Mais crescido, substituía o seu progenitor, elemento dos órgãos sociais da Irmandade de S. Sebastião, deslocando-se às povoações vizinhas, a fim de participar no funeral dos irmãos. Às vezes, quando o defunto tinha posses, lá trazia um pão de centeio para redimir a sua alma, nas circunstâncias sinónima de estômago.

Com a sua mãe sacristã de uma capela funerária, e a viver paredes meias com os mortos, assistiu a dezenas e dezenas de discussões, principalmente por causa das heranças, do vil metal, de cadeiras (não as do poder) e de bancos (não os do Espírito Santo mas de madeira). Um dia a cena foi tão forte, que o pobre do morto foi atirado para o chão, como se os vivos o culpassem por ter deixado tão pouco. As autoridades foram chamadas para repor a legalidade, ou seja, o morto no caixão e os familiares de mãos vazias nos bolsos.

Lembra funerais onde uma filha falta à última homenagem, porque o pai ou a mãe emprestou dinheiro ao irmão.

Lembra funerais perdidos por familiares que demoraram demasiado tempo no cabeleireiro.

Lembra, sobretudo, um dos funerais mais insólitos da sua vida.

Um dia, entrou no Estabelecimento Prisional um jovem acusado de um brutal homicídio. Por “razões que a própria razão desconhece”, espancara até à morte um companheiro de trabalho. Vinha da Zona do Pinhal, e o crime teve fortes repercussões sociais na sua localidade.

O recluso, ainda jovem e amante da liberdade, viu-se abandonado no silêncio da cela. Mil vezes se sentiu arrependido, chegando inclusive a pedir ao Assistente Religioso, com quem confidenciava, para entregar uma carta ao Pároco da sua aldeia, que por sua vez a leria na Missa, diante de todo o povo. Seria uma forma de pedir publicamente perdão pelo ato cometido. Entendeu-se que não era oportuno, o crime horrendo estava muito vivo na memória das pessoas.

Na mente do recluso persistia o drama pelo facto de ter assassinado um outro homem, o seu companheiro de jornada. Vieram médicos e psicólogos para tentarem ajudá-lo. Mas a culpa crescia dia-a-dia e o perdão dos conterrâneos nunca chegou. Não resistiu e pôs fim à vida.

A família, com medo de represálias na sua terra natal, entregou as diligências funerárias à instituição prisional. O Assistente Religioso contatou o Pároco e a Junta de Freguesia, e lá se reuniram as condições para a realização do funeral.

Finda a missa, onde se ouvia um sussurro barulhento, a urna foi transportada para o cemitério local. O Assistente Religioso Prisional realizava as últimas orações, quando verificou que os ânimos estavam muito exaltados entre a população. O povo não queria o criminoso enterrado junto aos outros habitantes.

Apesar dos apelos do padre missionário, homem robusto e sem medo, obrigando os presentes a rezar e a meditar no “Pai Nosso”, enfatizando e repetindo várias vezes o “perdoai as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, o povo não deixou que o morto criminoso “contaminasse” os familiares da campa vizinha.

Teve de se aguardar que o coveiro abrisse uma nova cova, num dos cantos do cemitério, longe de todos os outros sepultados – proscrito na vida, proscrito na morte.

O nosso Homem, que assistiu a tantos funerais, pensou para si: será preciso morrer a aldeia toda para este homem voltar a ter vizinhos.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Junho/2015

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