GUERNICA E NEGREIROS

É bom recordarmos datas, umas mais felizes e outras mais infelizes. Hoje lembro, passados 80 anos, o bombardeamento de Guernica no País Basco a 26 de Abril de 1937, catástrofe imortalizada pelos pincéis de Picasso num quadro de terror absoluto, exposto em Madrid no Museu Rainha Sofia.

Tive a oportunidade de observar lentamente essa pintura, que quase parece um filme de animação, feito de jornais, a construir-se e a destruir-se ao nosso olhar.

Poucas vezes se enfatizou tão bem o efeito devastador da guerra como nessa tela gigante, pintada a sangue preto e branco, onde não falta o touro e o cavalo, animais sacrificiais tão caros aos espanhóis.

Vemos a imagem de um homem decapitado e desmembrado, morto num grito; uma mulher esgotada que furou a escuridão com a sua brancura desesperada; uns braços no ar à procura de um amparo que não chega; um homem consumido pelas chamas, nos olhos a única água. São detalhes como estes que formam um todo dinâmico e tétrico, de onde a Humanidade parece nunca mais ter saído.

Encontro-me agora em visita à obra de Almada Negreiros na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa. Almada, filho de São Tomé e Príncipe, foi figura de primeiro plano do Modernismo Português, nas palavras do Dr. Guilherme d’Oliveira Martins, “o artista completo que procurou abrir caminhos novos com originalidade e um sentido próprio de praticar diferentes artes com subtil mestria, tendo na galáxia dos modernismos uma posição de múltiplos caminhos”.

Grande e iconoclasta escritor de manifestos ou do extraordinário romance “Nome de Guerra”, revelou-se essencialmente no domínio das artes plásticas. Sem qualquer formação artística, começou desde muito cedo a improvisar criaturas, até se tornar num dos autores mais marcantes do séc. XX português, a par dos seus contemporâneos Amadeo de Souza-Cardoso e Santa-Rita, igualmente génios do movimento modernista.

Foi também um grande artista da Revista Orfeu, onde debateu ideias com Fernando Pessoa ou Mário de Sá-Carneiro, revelando-se um verdadeiro revolucionário nas formas e nos conteúdos, provocador e sem falsos moralismos.  

Concluo este breve texto com uma das suas frases cortantes: “Coragem, portugueses, só vos faltam as qualidades.”

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Junho/2017

António Alves Fernandes

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