GUERRA

Estamos em Janeiro de 1967, o nosso Homem vai para Mafra cumprir o serviço militar, interrompendo os estudos. Três meses depois passa pela Escola Prática de Artilharia, é reclassificado e, por sorte, vai frequentar o Curso da Administração Militar no Lumiar. Feito o pedido para ficar na zona de Lisboa, onde tinha toda a família, o nosso Homem é recambiado para a 1ª Companhia Disciplinar de Penamacor, para lá chegar demorou um dia entre comboio e autocarro. Chega a “peluda”, chega a guia de marcha, está a caminho da Guiné no Uíge.

Estamos em finais de Outubro de 1968, embarca no Cais de Alcântara com milhares de militares, ao fim de quatro dias está no cu do mundo. Tem a sorte de ir num camarote com três beirões, com as sua violas suavizam o ambiente pesado que se vive. Sabe que a Guiné faz parte do território nacional, como ensinam na escola. Não sabe é que, mal desce as escadas do Uíge, um guindaste carrega caixões de militares camaradas. É lusco-fusco quando se confronta pela primeira vez com os mortos de uma guerra sem tréguas e sem razão.

São estas as memórias presentes quando me vejo com os “Amigos do Minho”, numa acolhedora Associação no coração de Lisboa, palco para um encontro de ex-combatentes e autêntico estúdio para a rodagem de um filme chamado “Guerra”, do jovem realizador José Oliveira, produzido por Abel Chaves, o único grande produtor do cinema português que arrisca.   

Integro um grupo de ex-militares que se reúnem para ensaiar a partir de um guião muito bem elaborado, que revela as feridas psicológicas da Guerra. Todos os participantes se mostram profissionais na dura arte de representar para uma câmara, partilhamos as nossas memórias, construímos as cenas em conjunto, discutimos patentes militares, diálogos, trajes e continências.

É de justiça realçar a paciência deste pequeno grupo de jovens audazes, que fazem parte da equipa do filme, inteiramente disponíveis para se dedicarem a estes Homens que um dia pegaram em armas sem saber bem porquê.

Para a posteridade recordo os nomes dos camaradas de Cabo Delgado, mais conhecidos pelos “Sombras”, que me acompanharam nestes dias de filmagens. Faço a chamada: Artur Lopes, que relembra no filme, com um discurso comovente, os soldados mortos e doentes, os Natais fora de casa, os laços de amizade dos sobreviventes; Manuel Santos (o extraordinário José Lopes, actor de “Longe”), casapiano, que sofre de um trauma de guerra e é o mais isolado do grupo; Fernando Castro, o “mostrengo” fumador (mais conhecido por “brasório”); Vítor Santos, o pândego, sempre bem disposto; Tó Zé Pereira, o silencioso; António Soares, o “vozeirão”; Manuel Guedes, que anima com belos poemas cantados a tarde dos antigos combatentes, lembrando a “mocidade perdida”. Fazemos todos um minuto de silêncio por aqueles que nos deixaram nos últimos anos.

Chega a hora da marmita, convivemos e brindamos ao sucesso do filme, e voltamos ao local de trabalho. O jovem Pedro Rufino lê o aerograma de um soldado, comovendo a assistência. Manuel Santos continua “cacimbado”, à parte. Artur Lopes repete para a câmara: “formamos uma família, que hoje aqui celebramos.”  

Parto ao final do dia para Setúbal, levo no coração a satisfação dos dias bem passados, com trabalho e em camaradagem.  

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Junho/2017

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